APOLÔNIO DE TIANA

O FILÓSOFO-REFORMADOR DO PRIMEIRO SÉCULO D.C.

UM ESTUDO CRÍTICO DO ÚNICO REGISTRO EXISTENTE DE SUA VIDA, COM ALGUM RELATO DA GUERRA DE OPINIÕES A SEU RESPEITO E UMA INTRODUÇÃO SOBRE AS ASSOCIAÇÕES RELIGIOSAS E IRMANDADES DA ÉPOCA E A POSSÍVEL INFLUÊNCIA DO PENSAMENTO INDIANO SOBRE A GRÉCIA — POR G.R.S. MEAD, B.A., M.R.A.S.

LONDRES E BENARES

SOCIEDADE TEOSÓFICA DE PUBLICAÇÕES

ÍNDICE.

SEÇÃO PÁGINA

I. INTRODUTÓRIA

II. AS ASSOCIAÇÕES E COMUNIDADES RELIGIOSAS DO PRIMEIRO SÉCULO ...

III. ÍNDIA E GRÉCIA

IV. O APOLÔNIO DA OPINIÃO ANTIGA . . . 28

V. TEXTOS, TRADUÇÕES E LITERATURA .

VI. O BIOGRAFO DE APOLÔNIO . . .

VII. VIDA INICIAL

VIII. AS VIAGENS DE APOLÔNIO ...

IX. NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS E NOS RETIROS DA RELIGIÃO ....

X. OS GIMNOSOFISTAS DO ALTO EGITO . .

XI. APOLÔNIO E OS GOVERNANTES DO IMPÉRIO

XII. APOLÔNIO, O PROFETA E OPERADOR DE MARAVILHAS . . . . .

XIII. SEU MODO DE VIDA

XIV. ELE MESMO E SEU CÍRCULO . . . .126

XV. DE SEUS DITOS E SERMÕES . .

XVI. DE SUAS CARTAS

XVII. OS ESCRITOS DE APOLÔNIO . .

XVIII. NOTAS BIBLIOGRÁFICAS . . . .

APOLÔNIO DE TIANA.

SEÇÃO I. INTRODUTÓRIA.

Para o estudante das origens do Cristianismo, naturalmente não há período da história ocidental de maior interesse e importância do que o primeiro século de nossa era; e, no entanto, quão pouco se sabe comparativamente sobre ele de natureza realmente definida e confiável.

Se é motivo de duradouro pesar que nenhum escritor não cristão do primeiro século tenha tido intuição suficiente do futuro para registrar sequer uma linha de informação sobre o nascimento e o crescimento do que viria a ser a religião do mundo ocidental, igualmente decepcionante é encontrar tão pouca informação definida sobre as condições sociais e religiosas gerais da época.

Os governantes e as guerras do Império parecem ter formado o principal interesse dos historiadores do século seguinte, e mesmo neste departamento da história política, embora

Z APOLÔNIO DE TIANA.

os atos públicos dos Imperadores possam ser razoavelmente bem conhecidos, pois podemos verificá-los por meio de registros e inscrições, quando chegamos aos seus atos privados e motivações, encontramo-nos não mais no terreno da história, mas, na maior parte, na atmosfera de preconceito, escândalo e especulação.

Os atos políticos dos Imperadores e de seus oficiais, no entanto, podem, na melhor das hipóteses, lançar apenas uma luz lateral e tênue sobre as condições sociais gerais da época, enquanto não lançam luz alguma sobre as condições religiosas, exceto na medida em que estas, em qualquer caso particular, tocavam o domínio da política.

Igualmente poderíamos procurar reconstruir um quadro da vida religiosa da época a partir de atos e rescritos imperiais, como tentar colher qualquer ideia da religião íntima deste país a partir da leitura de códigos de leis ou relatórios de debates parlamentares.

As assim chamadas histórias romanas, às quais até agora temos estado acostumados, não podem nos ajudar na reconstrução de um quadro do ambiente no qual, por um lado, Paulo conduziu a nova fé na Ásia Menor, Grécia e Roma; e no qual, por outro, ela já se encontrava nos distritos que margeavam o sudeste do Mediterrâneo.

É somente reunindo laboriosamente fragmentos isolados de informação e trechos de inscrições que nos tornamos cientes da existência da vida de um mundo de associações religiosas e cultos privados que existia neste

INTRODUTÓRIO.

período.

Não que, mesmo assim, tenhamos qualquer informação muito direta sobre o que se passava nessas associações, guildas e irmandades; mas temos evidência suficiente para lamentar intensamente a ausência de conhecimento adicional.

Por mais difícil que seja cultivar este campo, ele é extremamente fértil em interesse, e é de se lamentar que comparativamente tão pouco trabalho tenha sido até agora realizado nele; e que, como é tão frequentemente o caso, o trabalho que foi feito é, em sua maior parte, inacessível ao leitor de língua inglesa.

O que foi feito sobre este assunto especial pode ser visto na nota bibliográfica anexada a este ensaio, na qual é fornecida uma lista de livros e artigos que tratam das associações religiosas entre os gregos e romanos.

Mas se buscamos obter uma visão geral da condição dos assuntos religiosos no primeiro século, encontramo-nos sem um guia confiável; pois das obras que tratam deste assunto particular, há poucas.

E delas aprendemos pouco que não diga respeito imediato, ou que se pense dizer respeito, ao cristianismo; ao passo que é justamente o estado do mundo religioso não-cristão sobre o qual, no presente caso, desejamos ser informados.

Se, por exemplo, o leitor recorrer a obras de história geral, como a *History of the Romans under the Empire* de Merivale (Londres; última ed. 1865), encontrará, é verdade, no cap. iv, uma descrição do estado da religião até a morte de Nero, mas pouco mais sábio será por percorrê-la. Se recorrer à *Geschichte der römischen Kaiserreichs unter der Regierung des Nero* de Hermann Schiller (Berlim; 1872), encontrará muita razão para descartar as opiniões vulgares sobre os crimes monstruosos imputados a Nero, como de fato poderia fazer lendo em inglês o artigo de G. H. Lewes "Was Nero a Monster?" (*Cornhill Magazine*; julho, 1863) — e também encontrará (livro IV, cap. iii) uma visão geral da religião e filosofia da época que é muito mais inteligente do que a de Merivale; mas tudo ainda é muito vago e insatisfatório, e sentimo-nos ainda fora da vida íntima dos filósofos e religiosos do primeiro século.


Se, novamente, ele recorrer aos mais recentes escritores de história eclesiástica que trataram desta questão específica, descobrirá que eles se ocupam inteiramente do contato da Igreja Cristã com o Império Romano, e apenas incidentalmente nos fornecem qualquer informação da natureza que procuramos.

Neste terreno especial, C. J. Neumann, em seu cuidadoso estudo *Der römische Staat und die allgemeine Kirche bis auf Diocletian* (Leipzig; 1890), é interessante; enquanto o Prof.

W. M. Ramsay, em *The Church in the Roman Empire before A.D. 170* (Londres; 1893), é extraordinário, pois se esforça por interpretar a história romana pelos

INTRODUÇÃO.

documentos do Novo Testamento, cujas datas da maioria são tão acirradamente disputadas.

Mas, você poderá dizer, o que tem tudo isto a ver com Apolônio de Tiana? A resposta é simples: Apolônio viveu no primeiro século; sua obra situou-se precisamente entre essas associações religiosas, colégios e guildas.

Um conhecimento delas e de sua natureza nos daria o ambiente natural de grande parte de sua vida; e informações sobre sua condição no primeiro século talvez nos ajudassem a compreender melhor algumas das razões da tarefa que ele empreendeu.

Se, contudo, fossem apenas a vida e os esforços de Apolônio que seriam iluminados por esse conhecimento, poderíamos entender por que tão pouco esforço foi despendido nessa direção; pois o caráter do tianeano, como veremos, desde o quarto século tem sido encarado com pouco favor mesmo pelos poucos, enquanto a muitos foi ensinado a olhar para nosso filósofo não apenas como um charlatão, mas até mesmo como um anticristo.

Mas quando é justamente um conhecimento dessas associações e ordens religiosas que lançaria uma torrente de luz sobre a evolução mais primitiva do Cristianismo, não apenas no que diz respeito às comunidades paulinas, mas também àquelas escolas que foram posteriormente condenadas como heréticas, é surpreendente que nós não tenhamos tido um trabalho mais satisfatório feito sobre o assunto.


Pode-se dizer, no entanto, que essa informação não está disponível simplesmente porque é impossível de ser obtida.

Em grande medida, isso é verdade; no entanto, muito mais poderia ser feito do que até agora se tentou, e os resultados da pesquisa em direções específicas e nos recantos da história poderiam ser combinados, de modo que o não especialista pudesse obter alguma ideia geral das condições religiosas da época e, assim, ficasse menos inclinado a aderir à agora estereotipada condenação de todo esforço moral e religioso não judeu ou não cristão no Império Romano do primeiro século.

Mas o leitor pode retrucar: As coisas sociais e religiosas naqueles dias devem ter estado em um estado muito periclitante, pois, como este ensaio mostra, o próprio Apolônio passou a maior parte de sua vida tentando reformar as instituições e cultos do Império.

A isso respondemos: Sem dúvida havia muito a reformar, e quando não há? Mas não seria apenas pouco generoso, mas decididamente pernicioso para nós julgar nossos semelhantes daqueles dias somente pelo elevado padrão de uma moralidade ideal, ou mesmo medi-los contra o peso de nossas supostas virtudes e conhecimento.

Nosso ponto não é que não houvesse nada a reformar, longe disso, mas que as acusações em massa de depravação lançadas contra aqueles tempos não resistem a uma investigação imparcial.

INTRODUTÓRIO.

Pelo contrário, havia muito bom material pronto para ser trabalhado de muitas maneiras, e se não houvesse, como poderia ter havido, entre outras coisas, qualquer Cristianismo?

O Império Romano estava no zênite de seu poder, e se não houvesse muitos administradores admiráveis e homens de valor na casta governante, tal consumação política jamais poderia ter sido alcançada e mantida.

Além disso, como sempre ocorrera anteriormente no mundo antigo, a liberdade religiosa era garantida, e onde encontramos perseguição, como nos reinados de Nero e Domiciano, ela deve ser atribuída a razões políticas e não teológicas.

Deixando de lado a questão disputada da perseguição aos cristãos sob Domiciano, a perseguição neroniana foi dirigida contra aqueles que o poder imperial considerava revolucionários políticos judeus.

Assim, também, quando encontramos os filósofos aprisionados ou banidos de Roma durante esses dois reinados, não foi porque eram filósofos, mas porque o ideal de alguns deles era a restauração da República, e isso os tornava passíveis da acusação não apenas de serem descontentes políticos, mas também de conspirarem ativamente contra a majestade do Imperador.

Apolônio, no entanto, foi durante todo o tempo um ardente defensor do governo monárquico.


Quando, então, ouvimos falar dos filósofos sendo banidos de Roma ou lançados na prisão, devemos lembrar que isso não era uma perseguição generalizada à filosofia em todo o Império; e quando dizemos que alguns deles desejavam restaurar a República, devemos lembrar que a vasta maioria deles se abstinha da política, e especialmente este era o caso dos discípulos das escolas religioso-filosóficas.

SEÇÃO II.

AS ASSOCIAÇÕES E COMUNIDADES

RELIGIOSAS DO PRIMEIRO

SÉCULO.

No domínio da religião, é bem verdade que os cultos estatais e as instituições nacionais em todo o Império estavam, quase sem exceção, em um estado precário, e deve-se notar que Apolônio dedicou muito tempo e trabalho para revivê-los e purificá-los.

De fato, sua força há muito havia deixado as instituições estatais gerais da religião, onde tudo agora era meramente cerimonial; mas longe de não haver vida religiosa na terra, na proporção em que o culto oficial e as instituições ancestrais não ofereciam satisfação real às suas necessidades religiosas, mais ardentemente o povo se dedicava aos cultos privados, e avidamente mergulhava em toda aquela torrente de entusiasmo religioso que fluía com volume cada vez maior do Oriente.

Indubitavelmente, em toda essa fermentação havia muitos excessos, de acordo com nossas noções atuais de decoro religioso, e também graves abusos; mas, ao mesmo tempo, muitos encontraram nele justa satisfação para suas emoções religiosas e, se excetuarmos os cultos decididamente viciosos, temos em grande parte diante de nós, nos círculos populares, o espetáculo do que, em última análise, são fenômenos semelhantes àqueles entusiasmos que, em nossos dias, podem ser frequentemente testemunhados entre seitas como os Shakers ou os Eanters, e nos encontros gerais de reavivamento dos não instruídos.


Não se deve pensar, contudo, que os cultos privados e as atividades das associações religiosas fossem todos dessa natureza ou confinados a essa classe; longe disso. Havia irmandades religiosas, comunidades e clubes — tiasos, eranos e orgeones — de todos os tipos e condições.

Havia também sociedades de benefício mútuo, clubes funerários e companhias de refeições, os protótipos de nossas atuais corporações maçônicas, Oddfellows e demais.

Essas associações religiosas não eram privadas apenas no sentido de que não eram mantidas pelo Estado, mas também, em sua maioria, eram privadas no sentido de que o que faziam era mantido em segredo, e essa é talvez a principal razão pela qual temos um registro tão deficiente delas.

Entre elas devem ser contadas não apenas as formas inferiores de culto de mistérios de vários tipos, mas também as maiores, tais como os

ASSOCIAÇÕES RELIGIOSAS DO PRIMEIRO SÉCULO.

Mistérios Frígios, Báquicos, Ísiacos e Mitríacos, que se espalhavam por toda parte através do Império.

Os famosos Eleusínios, contudo, ainda estavam sob a égide do Estado, mas, embora tão famosos, eram, como culto estatal, muito mais perfunctórios.

Além disso, não se deve pensar que os grandes tipos de culto de mistérios acima mencionados fossem uniformes mesmo entre si.

Havia não apenas vários graus e níveis dentro deles, mas também, com toda probabilidade, muitas formas de cada linha de tradição, boas, más e indiferentes.

Por exemplo, sabemos que era considerado de rigor que todo cidadão respeitável de Atenas fosse iniciado nos Mistérios de Elêusis e, portanto, as provas não podiam ser muito rigorosas; enquanto na obra mais recente sobre o assunto, *De Apuleio Isiacorum Mysteriorum Teste* (Leyden; 1900), o Dr. K. H. E. De Jong mostra que, em uma forma dos Mistérios de Ísis, o candidato era convidado à iniciação por meio de um sonho; isto é, ele tinha de ser psiquicamente impressionável antes de sua aceitação.

Temos aqui, então, um vasto campo intermediário para o exercício religioso entre as formas mais populares e indisciplinadas dos cultos privados e as formas mais elevadas, que só podiam ser abordadas por meio da disciplina e do treinamento da vida filosófica.

O lado mais elevado dessas instituições de mistérios despertava o entusiasmo de tudo o que havia de melhor na antiguidade, e louvores sem reservas foram dados a uma ou outra forma deles pelos maiores pensadores e escritores da Grécia e de Roma; de modo que não podemos deixar de pensar que aqui os instruídos encontravam aquela satisfação para suas necessidades religiosas que era necessária não apenas para aqueles que não podiam ascender ao ar puro da razão pura, mas também para aqueles que haviam subido tão alto nas alturas da razão que podiam vislumbrar o outro lado.


Os cultos oficiais eram notoriamente incapazes de lhes dar essa satisfação e eram apenas tolerados pelos instruídos como um auxílio para o povo e um meio de preservar a vida tradicional da cidade ou do Estado.

Por consentimento comum, os mais virtuosos viventes da Grécia eram os membros das escolas pitagóricas, tanto homens quanto mulheres.

Após a morte de seu fundador, os pitagóricos parecem ter-se gradualmente mesclado com as comunidades órficas, e a "vida órfica" era o termo reconhecido para uma vida de pureza e abnegação.

Sabemos também que os órficos, e portanto os pitagóricos, estavam ativamente engajados na reforma, ou mesmo na total reformulação, dos ritos báquico-eleusinos; eles parecem ter trazido de volta o lado puro do culto báquico com sua reinstitucionalização ou reimportação do iácquico.

ASSOCIAÇÕES RELIGIOSAS DO PRIMEIRO SÉCULO.

mistérios, e é muito evidente que tais vidas austeras e pensadores profundos não poderiam ter se contentado com uma forma inferior de culto.

Sua influência também se espalhou por toda parte nos círculos báquicos em geral, de modo que encontramos Eurípides colocando as seguintes palavras na boca de um coro de iniciados báquicos: "Vestido em brancas vestes, apresso-me para longe da origem dos homens mortais, e nunca mais me aproximo do vaso da morte, pois terminei com a comida que outrora abrigou uma alma." * Tais palavras poderiam bem ser postas na boca de um asceta brâmane ou budista, ansioso por escapar dos laços do Samsara; e tais homens não podem, portanto, ser justamente classificados indiscriminadamente com foliões devassos — a imagem mental geral de uma companhia báquica.

Mas, alguém pode dizer, Eurípides e os pitagóricos e órficos não são evidência para o primeiro século; qualquer bem que possa ter havido em tais escolas e comunidades, havia cessado muito antes.

Pelo contrário, a evidência é toda contra essa objeção.

Filo, escrevendo por volta de 25 d.C., nos diz que em seus dias numerosos grupos de homens, que em todos os aspectos levavam essa vida de religião, que abandonavam suas propriedades, retiravam-se do mundo e se dedicavam inteiramente à busca da sabedoria e ao culti-

* De um fragmento de Os Cretenses.

Ver Aglaophamus de Lobeck, p. 622.


vo da virtude, estavam espalhados por toda parte no mundo.

Em seu tratado, Sobre a Vida Contemplativa, ele escreve: "Esta classe natural de homens é encontrada em muitas partes do mundo habitado, tanto no mundo grego quanto no não grego, participando do bem perfeito.

No Egito há multidões deles em cada província, ou nomo, como a chamam, e especialmente ao redor de Alexandria." Esta é uma declaração muito importante, pois se havia tantos devotados à vida religiosa nessa época, segue-se que a era não era uma de depravação pura.

Não se deve, contudo, pensar que essas comunidades fossem todas de natureza exatamente semelhante, ou de uma mesma origem, menos ainda que fossem todas Terapeutas ou Essênios.

Basta lembrarmos as várias linhas de descendência das doutrinas sustentadas pelas inúmeras escolas classificadas em conjunto como gnósticas, como esboçado em minha obra recente, *Fragmentos de uma Fé Esquecida*, e voltarmo-nos para os belos tratados das escolas herméticas, para nos convencermos de que no primeiro século o anseio pela vida religiosa e filosófica era difundido e variado.

Não estamos, porém, entre aqueles que acreditam que a origem das comunidades dos terapeutas de Fílon e dos essênios de Fílon e Josefo deva ser atribuída à influência órfica e pitagórica.

A questão da origem precisa está ainda além do alcance da pesquisa histórica, e não somos daqueles que exagerariam um elemento da massa a ponto de torná-lo uma fonte universal.

Mas quando lembramos a existência de todas essas comunidades tão amplamente dispersas no primeiro século, quando estudamos o registro imperfeito, porém importante, das numerosíssimas escolas e irmandades de natureza semelhante que entraram em contato íntimo com o cristianismo em suas origens, não podemos deixar de sentir que havia o fermento de uma forte vida religiosa atuando em muitas partes do Império.

Nossa grande dificuldade é que essas comunidades, irmandades e associações mantiveram-se separadas e, com raras exceções, não deixaram registros de suas práticas e crenças íntimas; ou, se deixaram algum, foi destruído ou perdido.

Na maior parte, portanto, temos de nos apoiar em indicações gerais de caráter muito superficial.

Mas esse registro imperfeito não nos justifica a negar ou ignorar sua existência e a intensidade de seus esforços; e uma história que se propõe a pintar um quadro dos tempos é totalmente insuficiente enquanto omitir esse assunto tão vital de sua tela.

Entre tais ambientes como esses movia-se Apolônio; mas quão pouco seu biógrafo parece ter percebido esse fato! Filóstrato tem a apreciação de um retórico por uma vida de corte filosófica, mas nenhum sentimento pela vida da religião.

É apenas indiretamente que a Vida de Apolônio, tal como agora é descrita, pode lançar alguma luz sobre essas comunidades tão interessantes, mas mesmo uma luz ocasional é preciosa onde tudo está em tamanha obscuridade.

Se ao menos fosse possível penetrar na memória viva de Apolônio e ver com seus olhos as coisas que ele viu quando viveu há mil e novecentos anos, que página enormemente interessante da história do mundo poderia ser recuperada! Ele não apenas atravessou todos os países onde a nova fé estava se enraizando, mas viveu por anos na maioria deles e conhecia intimamente inúmeras comunidades místicas no Egito, na Arábia e na Síria.

Certamente ele deve ter visitado também algumas das primeiras comunidades cristãs, deve até ter conversado com alguns dos "discípulos do Senhor"! E, no entanto, nenhuma palavra é dita sobre isso; nem um único fragmento de informação sobre esses pontos colhemos do que dele está registrado.

Certamente ele deve ter encontrado Paulo, se não em outro lugar, então em Roma, em 66, quando teve de partir por causa do édito de exílio contra os filósofos, exatamente no ano, segundo alguns, em que Paulo foi decapitado!

SEÇÃO III.

ÍNDIA E GRÉCIA.

Há, contudo, outra razão pela qual Apolônio é importante para nós. Ele era um admirador entusiasta da sabedoria da Índia.

Aqui novamente se abre um assunto de amplo interesse. Que influências, se é que houve alguma, o Bramanismo e o Budismo exerceram sobre o pensamento ocidental nesses primeiros anos? Alguns afirmam veementemente que tiveram grande influência; outros negam com igual veemência que tiveram qualquer influência.

É, portanto, evidente que não há evidência realmente indiscutível sobre o assunto.

Assim como alguns atribuiriam a constituição das comunidades essênias e terapeutas à influência pitagórica, outros atribuiriam sua origem à propaganda budista; e não apenas rastreariam essa influência nos dogmas e práticas essênios, mas refeririam até mesmo o ensinamento geral do Cristo a uma fonte budista em um cenário monoteísta judaico.

Não apenas isso, mas alguns quereriam que dois séculos antes do contato geral direto da Grécia com a Índia, ocasionado pelas conquistas de Alexandre, a Índia, por meio de Pitágoras, influenciou forte e duradouramente todo o pensamento grego subsequente.


A questão certamente não pode ser resolvida por afirmação ou negação precipitadas; exige não apenas um amplo conhecimento da história geral e um estudo minucioso de indicações dispersas e imperfeitas de pensamento e prática, mas também uma apurada apreciação do valor correto da evidência indireta, pois de testemunho direto não há nenhum de natureza realmente decisiva.

A tais altas qualificações não podemos pretender, e nossa maior ambição é simplesmente dar algumas indicações muito gerais sobre a natureza do assunto.

É claramente afirmado pelos antigos gregos que Pitágoras foi à Índia, mas como a afirmação é feita por escritores neopitagóricos e neoplatônicos posteriores à época de Apolônio, objeta-se que as viagens do tianeano sugeriram não apenas este item na biografia do grande samiano, mas vários outros, ou mesmo que o próprio Apolônio, em sua Vida de Pitágoras, foi o pai do boato.

A estreita semelhança, no entanto, entre muitas das características da disciplina e doutrina pitagóricas e o pensamento e a prática indo-arianos nos faz

ÍNDIA E GRÉCIA.

hesitar inteiramente em rejeitar a possibilidade de Pitágoras ter visitado a antiga Aryavarta.

E mesmo que não possamos ir tão longe a ponto de entreter a possibilidade de contato pessoal direto, há que se levar em consideração o fato de que Ferecides, o mestre de Pitágoras, pode ter tido conhecimento de algumas das principais ideias do saber védico.

Ferecides ensinou em Éfeso, mas era ele próprio muito provavelmente um persa, e é bastante crível que um erudito asiático, ensinando uma filosofia mística e baseando sua doutrina na ideia de renascimento, possa ter tido algum conhecimento indireto, se não direto, do pensamento indo-ariano.

A Pérsia deve ter estado, mesmo nessa época, em estreito contato com a Índia, pois por volta da data da morte de Pitágoras, no reinado de Dario, filho de Histaspes, no final do século VI e início do século V antes da nossa era, ouvimos falar da expedição do general persa Cílax descendo o Indo, e aprendemos com Heródoto que, nesse reinado, a Índia (isto é, o Punjab) formava a vigésima satrapia da monarquia persa.

Além disso, tropas indianas estavam entre os exércitos de Xerxes; elas invadiram a Tessália e lutaram em Plateia.

Desde a época de Alexandre em diante, houve contato direto e constante entre Aryavarta e os reinos dos sucessores do conquistador do mundo, e muitos gregos escreveram sobre essa terra de mistério; mas em tudo o que chegou até nós, procuramos em vão por algo além das mais vagas indicações do que os "filósofos" da Índia pensavam sistematicamente.


Que os brâmanes teriam, nessa época, permitido que seus livros sagrados fossem lidos pelos Yavanas (Jônios, o nome geral para gregos nos registros indianos) é contrário a tudo o que sabemos de sua história.

Os Yavanas eram Mlechchhas, fora do âmbito dos Aryas, e tudo o que puderam colher da zelosamente guardada Brahma-vidya, ou teosofia, deve ter dependido unicamente da observação externa.

Mas a atividade religiosa dominante nessa época na Índia era budista, e é a esse protesto contra as rígidas distinções de casta e raça feitas pelo orgulho bramânico, e à surpreendente novidade de uma propaganda religiosa entusiástica entre todas as classes e raças na Índia, e fora da Índia para todas as nações, que devemos buscar o contato mais direto de pensamento entre a Índia e a Grécia.

Por exemplo, em meados do século III a.C., sabemos pelo décimo terceiro édito de Asoka que esse imperador budista da Índia, o Constantino do Oriente, enviou missionários a Antíoco II da Síria, Ptolomeu II do Egito, Antígono Gônatas da Macedônia, Magas de Cirene e Alexandre II do Épiro.

Quando, em uma terra de tão imperfeitas

ÍNDIA E GRÉCIA.

registros, a evidência do lado da Índia é tão clara e indubitável, tanto mais extraordinário é que não temos testemunho direto do nosso lado de tão grande atividade missionária.

Embora, então, meramente por causa da ausência de toda informação direta das fontes gregas, seja muito arriscado generalizar, no entanto, do nosso conhecimento geral dos tempos, não é ilegítimo concluir que nenhuma grande agitação pública poderia ter sido causada por esses pioneiros do Dharma no Ocidente.

Com toda probabilidade, esses Bhikshus budistas não produziram efeito algum sobre os governantes ou sobre o povo.

Mas foi a sua missão inteiramente abortiva; e cessou com eles o empreendimento missionário budista em direção ao Ocidente?

A resposta a esta pergunta, ao que nos parece, está oculta na obscuridade das comunidades religiosas.

Não podemos, contudo, ir tão longe a ponto de concordar com aqueles que cortariam o nó górdio afirmando dogmaticamente que as comunidades ascéticas na Síria e no Egito foram fundadas por esses propagandistas budistas.

Já mesmo na própria Grécia existiam não apenas comunidades pitagóricas, mas até anteriores a elas, comunidades órficas, pois mesmo neste terreno acreditamos que Pitágoras desenvolveu o que já encontrou existente, em vez de ter estabelecido algo inteiramente novo.

E se elas eram encontradas na Grécia, muito mais razoável é supor que tais comunidades já existiam na Síria, na Arábia e no Egito, cujas populações eram muito mais dedicadas a exercícios religiosos do que os gregos céticos e amantes do riso.

É, contudo, crível que em tais comunidades, se em algum lugar, a propaganda budista encontraria um público apreciativo e atento; mas mesmo assim é notável que não tenham deixado nenhum traço distintamente direto de sua influência.

No entanto, tanto pela via marítima quanto pela grande rota das caravanas, havia uma linha de comunicação sempre aberta entre a Índia e o Império dos sucessores de Alexandre; e é até permitido especular que, se pudéssemos recuperar um catálogo da grande biblioteca alexandrina, por exemplo, talvez encontrássemos nela manuscritos indianos.

fossem encontrados entre os outros rolos e pergaminhos das escrituras das nações.

De fato, há frases nos tratados mais antigos da literatura hermética trismegística que podem ser tão estreitamente paralelizadas com frases dos Upanishads e do Bhagavad Gita, que quase somos tentados a acreditar que os escritores tinham algum conhecimento do conteúdo geral dessas escrituras bramânicas.

A literatura trismegística teve sua gênese no Egito, e seu depósito mais antigo deve ser datado pelo menos no primeiro século d.C., se não puder ser recuado ainda mais.

Ainda mais impressionante é a semelhança entre a

ÍNDIA E GRÉCIA.

elevada mística metafísica do médico gnóstico Basilides, que viveu no final do primeiro e início do segundo século d.C., e as ideias vedânticas.

Além disso, tanto a escola hermética quanto a basilidiana e seus predecessores imediatos eram dedicados a uma severa autodisciplina e a um profundo estudo filosófico que os faria acolher ansiosamente qualquer filósofo ou estudante místico que pudesse vir do Extremo Oriente.

Mas, mesmo assim, não somos daqueles que, por suas próprias limitações autoimpostas de possibilidade, estão condenados a encontrar algum contato físico direto para explicar uma semelhança de ideias ou mesmo de fraseado.

Concedendo, por exemplo, que há muita semelhança entre os ensinamentos do Dharma do Buda e do Evangelho do Cristo, e que o mesmo espírito de amor e gentileza permeia ambos, ainda assim não há necessidade de procurar a razão dessa semelhança em uma transmissão puramente física.

E assim para outras escolas e outros mestres; condições semelhantes produzirão fenômenos semelhantes; esforço semelhante e aspiração semelhante produzirão ideias semelhantes, experiências semelhantes e respostas semelhantes.

E acreditamos que este seja o caso não de maneira geral, mas que tudo é muito definitivamente ordenado de dentro pelos servos dos verdadeiros guardiões das coisas religiosas neste mundo.

Não somos, então, compelidos a dar tanta ênfase à questão da transmissão física, nem mesmo a buscar encontrar prova de cópia.


A mente humana, em seus diversos graus, é muito semelhante em todos os climas e épocas, e sua experiência interior tem um terreno comum no qual a semente pode ser lançada, à medida que é cultivada e limpa de ervas daninhas.

A boa semente vem toda do mesmo celeiro, e aqueles que a semeiam não dão atenção às distinções exteriores feitas pelo homem de raça e credo.

Por mais difícil que seja, portanto, provar, a partir de declarações inquestionavelmente históricas, qualquer influência direta do pensamento indiano sobre as concepções e práticas de algumas dessas comunidades religiosas e escolas filosóficas do Império Greco-Romano, e embora em qualquer caso particular a similaridade de ideias não precise necessariamente ser atribuída a transmissão física direta, no entanto, a mais alta probabilidade, se não a maior certeza, permanece de que, mesmo antes dos dias de Apolônio, havia algum conhecimento privado na Grécia das ideias gerais do Vedanta e do Dharma; enquanto no caso do próprio Apolônio, mesmo se descontarmos nove décimos do que é relatado sobre ele, sua única ideia parece ter sido espalhar entre as irmandades religiosas e instituições do Império alguma porção da sabedoria que ele trouxe consigo da Índia.

Quando, então, encontramos no final do primeiro

ÍNDIA E GRÉCIA.

e durante a primeira metade do segundo século, entre tais associações místicas como as escolas herméticas e gnósticas, ideias que fortemente nos lembram a teosofia dos Upanishads ou a ética racional dos Suttas, temos sempre que levar em consideração não apenas a alta probabilidade de Apolônio ter visitado tais escolas, mas também a possibilidade de ele ter discorrido longamente nelas sobre a sabedoria indiana.

Não só isso, mas a memória de sua influência pode ter perdurado por muito tempo em tais círculos, pois não encontramos Plotino, o corifeu do Neoplatonismo, como é chamado, tão enamorado do que ouvira sobre a sabedoria da Índia em Alexandria, que em 242 partiu com a malfadada expedição de Gordiano para o Oriente, na esperança de alcançar aquela terra de filosofia? Com o fracasso da expedição e o assassinato do Imperador, contudo, teve de retornar, para sempre desapontado em sua esperança.

Não se deve pensar, porém, que Apolônio partiu para fazer uma propaganda da filosofia indiana da mesma forma que o missionário comum parte para pregar sua concepção do Evangelho.

De modo algum; Apolônio parece ter se esforçado para ajudar seus ouvintes, quem quer que fossem, da maneira mais adequada a cada um deles.

Ele não começava dizendo-lhes que aquilo em que acreditavam era totalmente falso e destruidor da alma, e que seu bem-estar eterno dependia de adotarem imediatamente seu próprio esquema especial de salvação; ele simplesmente se esforçava para purificar e explicar melhor o que já acreditavam e praticavam.


Que algum poder forte o apoiasse em sua atividade incessante e em sua tarefa quase mundial, não é tão difícil de crer; e é uma questão de profundo interesse para aqueles que se esforçam para perscrutar através das névoas da aparência, especular como não apenas um Paulo, mas também um Apolônio, foi ajudado e dirigido em sua tarefa de dentro.

O dia, contudo, ainda não amanheceu em que será possível para a mente geral no Ocidente abordar a questão com tal liberdade de preconceito, a ponto de suportar o pensamento de que, visto de dentro, não apenas Paulo, mas também Apolônio, pode muito bem ter sido um "discípulo do Senhor" no verdadeiro sentido das palavras; e isso embora, na superfície das coisas, suas tarefas pareçam em muitos aspectos tão dessemelhantes, e até, para preconcepções teológicas, inteiramente antagônicas.

Felizmente, porém, mesmo hoje há um número sempre crescente de pessoas pensantes que não apenas não se chocarão com tal crença, mas que a receberão com alegria como o arauto do

ÍNDIA E GRÉCIA.

alvorecer de um verdadeiro sol de justiça, que fará mais para iluminar os múltiplos caminhos da religião de nossa humanidade comum do que toda a justiça própria de qualquer corpo particular de religiosos exclusivistas.

É, então, nesta atmosfera de caridade e tolerância que pedimos ao leitor que se aproxime da consideração de Apolônio e seus feitos, e não apenas da vida e das ações de um Apolônio, mas também de todos aqueles que se esforçaram para ajudar seus semelhantes em todo o mundo.

SEÇÃO IV. O APOLÔNIO DA OPINIÃO PRIMITIVA.

APOLÔNIO de Tiana* foi o mais famoso filósofo do mundo greco-romano do primeiro século, e dedicou a maior parte de sua longa vida à purificação dos muitos cultos do Império e à instrução dos ministros e sacerdotes de suas religiões.

Com exceção do Cristo, nenhum personagem mais interessante aparece no palco da história ocidental nesses primeiros anos.

Muitas e variadas e frequentemente mutuamente contraditórias são as opiniões que se têm sustentado sobre Apolônio, pois o relato de sua vida que chegou até nós está na forma de uma história romântica, mais do que na forma de uma história simples.

E isso talvez seja até certo ponto de se esperar, pois Apolônio, além de seu ensino público, tinha uma vida à parte, uma vida na qual nem mesmo seu discípulo favorito

* Pronuncia-se Tiana, com o acento na primeira sílaba e o primeiro a breve.

O APOLÔNIO DA OPINIÃO PRIMITIVA.

não adentra.

Ele viaja para as terras mais distantes, e se perde para o mundo por anos; ele entra nos santuários dos templos mais sagrados e nos círculos internos das comunidades mais exclusivas, e o que ele diz ou faz ali permanece um mistério, ou serve apenas como uma oportunidade para a tecelagem de alguma história fantástica por aqueles que não compreendiam.

O estudo seguinte será simplesmente uma tentativa de apresentar ao leitor um breve esboço do problema que os registros e tradições da vida do famoso Tianeano apresentam; mas antes de tratarmos da Vida de Apolônio, escrita por Flávio Filóstrato no início do terceiro século, devemos dar ao leitor um breve relato das referências a Apolônio entre os escritores clássicos e os Padres da Igreja, e um curto esboço da literatura sobre o assunto em tempos mais recentes, e das variadas fortunas da guerra de opinião concernente à sua vida nos últimos quatro séculos.

Primeiro, então, com relação às referências em autores clássicos e patrísticos.

Luciano, o espirituoso escritor da primeira metade do segundo século, torna o assunto de uma de suas sátiras o pupilo de um discípulo de Apolônio, de um daqueles que estavam familiarizados com "toda a tragédia" * de sua vida.

E Apuleio, contemporâneo de Luciano, classifica * Alexander sive Pseudomantis, vi.


Apolônio com Moisés e Zoroastro, e outros famosos Magos da antiguidade.*

Pelo mesmo período, em uma obra intitulada Quaestiones et Responsiones ad Orthodoxos, anteriormente atribuída a Justino Mártir, que floresceu no segundo quartel do segundo século, encontramos a seguinte declaração interessante:

"Pergunta 24: Se Deus é o criador e mestre da criação, como os objetos consagrados t de Apolônio têm poder nas [várias] ordens dessa criação? Pois, como vemos, eles refreiam o furor das ondas e o poder dos ventos e as investidas de vermes e ataques de feras." {

Dion Cássio em sua história,§ que ele escreveu em 211-222 d.C., afirma que Caracala (Imperador 211-216) honrou a memória de Apolônio com uma capela ou monumento (heroum).

Foi justamente nessa época (216) que Filóstrato compôs sua Vida de Apolônio, a pedido de Domna Júlia, mãe de Caracala, e é com este documento principalmente que teremos de lidar no que se segue.

* De Magia, xc. (ed. Hildebrand, 1842, ii. 614).

f TeAeoyxaTa.

Telesma era "um objeto consagrado, transformado pelos árabes em telsam (talismã)"; ver o Léxico de Liddell e Scott, sub voc.

J Justino Mártir, Opera, ed. Otto (2ª ed.; Jena, 1849), iii. 32. § Lib. lxxvii. 18.

O APOLÔNIO DA OPINIÃO PRIMITIVA.

Lamprídio, que floresceu por volta de meados do terceiro século, informa-nos ainda que Alexandre Severo (Imperador 222-235) colocou a estátua de Apolônio em seu larário, juntamente com as de Cristo, Abraão e Orfeu.

Vopisco, escrevendo na última década do terceiro século, conta-nos que Aureliano (Imperador 270-275) prometeu um templo a Apolônio, de quem tivera uma visão ao sitiar Tiana.

Vopisco fala do tianeano como "um sábio da mais vasta renomeada e autoridade, um antigo filósofo e um verdadeiro amigo dos Deuses", e até como uma manifestação da divindade. "Pois o que entre os homens", exclama o historiador, "era mais santo, o que mais digno de reverência, o que mais venerável, o que mais divino do que ele? Foi ele quem deu vida aos mortos. Foi ele quem fez e disse tantas coisas além do poder dos homens."† Tão entusiasta é Vopisco acerca de Apolônio, que promete, se viver, escrever um breve relato de sua vida em latim, para que seus feitos e palavras estejam na boca de todos, pois até então os únicos relatos estão em grego.‡ Vopisco, no entanto, não cumpriu sua promessa, mas

* Vida de Alexandre Severo, xxix.
† Vida de Aureliano, xxiv.
‡ "Quae qui velit nosse, graecos legat libros qui de ejus vita conscripti sunt." Esses relatos eram provavelmente os livros de Máximo, Moerágenes e Filóstrato.


sabemos que por essa época tanto Sotérico* quanto Nicômaco escreveram Vidas de nosso filósofo, e pouco depois Táscia Vitoriano, trabalhando sobre os papéis de Nicômaco,† também compôs uma Vida.

Nenhuma dessas Vidas, contudo, chegou até nós.

Foi justamente nesse período também, ou seja, nos últimos anos do terceiro século e nos primeiros anos do quarto, que Porfírio e Jâmblico compuseram seus tratados sobre Pitágoras e sua escola; ambos mencionam Apolônio como uma de suas autoridades, e é provável que as primeiras 30 seções de Jâmblico sejam tiradas de Apolônio.

Chegamos agora a um incidente que lançou o caráter de Apolônio na arena das polêmicas cristãs, onde tem sido agitado até os dias de hoje.

Hierocles, sucessivamente governador de Palmira, Bitínia e Alexandria, e filósofo, por volta do ano 305 escreveu uma crítica às pretensões dos cristãos, em dois livros,

* Um poeta épico egípcio, que escreveu várias histórias poéticas em grego; floresceu na última década do terceiro século.

† Sidônio Apolinário, Epp., viii.

3. Ver também Legrand d'Aussy, Vie d'Apollonius de Tyane (Paris; 1807), p. xlvii.

J Porfírio, De Vita Pythagorae, seção ii., ed. Kiessling (Leipzig; 1816). Jâmblico, De Vita Pythagorica, cap. xxv., ed. Kiessling (Leipzig; 1813); ver especialmente a nota de K., pp. 11 e seguintes.

Ver também Porfírio, Frag., De Styge, p. 285, ed. Hoist.

O APOLÔNIO DA OPINIÃO PRIMITIVA.

chamado *Discurso Verdadeiro aos Cristãos*, ou mais brevemente *O Amante da Verdade*.

Ele parece ter se baseado em grande parte nas obras anteriores de Celso e Porfírio,* mas introduziu um novo assunto de controvérsia ao opor as obras maravilhosas de Apolônio às pretensões dos cristãos ao direito exclusivo de "milagres" como prova da divindade de seu Mestre.

Nessa parte de seu tratado, Hierocles usou a *Vida de Apolônio* de Filóstrato.

A essa crítica pertinente de Hierocles, Eusébio de Cesareia respondeu imediatamente em um tratado ainda existente, intitulado *Contra Hieroclem*.† Eusébio admite que Apolônio era um homem sábio e virtuoso, mas nega que haja prova suficiente de que as coisas maravilhosas atribuídas a ele tenham realmente ocorrido; e mesmo que tenham ocorrido, foram obra de "demônios", e não de Deus.

O tratado de Eusébio é interessante; ele examina severamente as declarações de Filóstrato e mostra-se possuidor de uma faculdade crítica de primeira ordem.

*  Ver Duchesne sobre as obras recentemente descobertas de Macário Magnes (Paris; 1877).

†  O texto mais conveniente é o de Gaisford (Oxford; 1852), Eusebii Pamphili contra Hieroclem; também está impresso em várias edições de Filóstrato.

Existem duas traduções em latim, uma em italiano, uma em dinamarquês, todas encadernadas com a Vita de Filóstrato, e uma em francês impressa à parte (Discours d'Eusebe Evque de Cesaree touchant les Miracles attribuez par les Payens & Apollonius de Tyane, trad. por Cousin. Paris; 1584, 12mo, 135pp.).


Se tivesse usado a mesma faculdade nos documentos da Igreja, da qual foi o primeiro historiador, a posteridade lhe deveria uma eterna dívida de gratidão.

Mas Eusébio, como tantos outros apologistas, só conseguia ver um lado; a justiça, quando algo referente ao Cristianismo era posto em questão, era estranha à sua mente, e ele teria considerado blasfêmia usar sua faculdade crítica nos documentos que relatam os "milagres" de Jesus.

Ainda assim, o problema do "milagre" era o mesmo, como Hierocles apontou, e permanece o mesmo até hoje.

Depois que a controvérsia reencarnou novamente no século XVI, e quando a hipótese do "Diabo" como o primeiro motor em todos os "milagres", exceto os da Igreja, perdeu sua influência com o progresso do pensamento científico, a natureza das maravilhas relatadas na Vida de Apolônio ainda era uma dificuldade tão grande que deu origem a uma nova hipótese de plágio.

A vida de Apolônio era um plágio pagão da vida de Jesus.

Mas Eusébio e os Padres que o seguiram não suspeitaram disso; eles viveram em tempos em que tal afirmação poderia ter sido facilmente refutada.

Não há uma palavra em Filóstrato que mostre que ele tivesse qualquer conhecimento da vida de Jesus, e por mais fascinante que a teoria da "escrita tendenciosa" de Baur seja para muitos, só podemos dizer que

O APOLÔNIO DA OPINIÃO PRIMITIVA.

como plagiário da história do Evangelho, Filóstrato é um fracasso notório.

Filóstrato escreve a história de um homem bom e sábio, um homem com uma missão de ensino, revestido das histórias maravilhosas preservadas na memória e embelezadas pela imaginação de uma posteridade afetuosa, mas não o drama da Divindade encarnada como o cumprimento da profecia mundial.

Lactâncio, escrevendo por volta de 315, também atacou o tratado de Hierocles, que parece ter apresentado algumas críticas muito pertinentes; pois o Padre da Igreja diz que ele enumera tantos de seus ensinamentos internos cristãos (intima) que às vezes pareceria ter, em algum momento, passado pelo mesmo treinamento (disciplina). Mas é em vão, diz Lactâncio, que Hierocles se esforça para mostrar que Apolônio realizou feitos semelhantes ou até maiores do que Jesus, pois os cristãos não creem que Cristo é Deus porque ele fez coisas maravilhosas, mas porque todas as coisas realizadas nele foram aquelas que foram anunciadas pelos profetas.* E ao tomar essa posição, Lactâncio viu muito mais claramente do que Eusébio a fraqueza da prova do "milagre".

Arnóbio, o mestre de Lactâncio, no entanto, escrevendo no final do terceiro século, antes da controvérsia, ao se referir a Apolônio simplesmente o classifica entre os Magos, como Zoroastro e outros mencionados na passagem de Apuleio à qual já nos referimos.*

* Lactâncio, Divinae Institutiones, v. 2, 3; ed. Fritsche (Leipzig; 1842), pp. 233, 236.

Mas mesmo após a controvérsia, há uma grande diferença de opinião entre os Padres, pois embora no final do século IV João Crisóstomo, com grande amargura, chame Apolônio de enganador e malfeitor, e declare que todos os incidentes de sua vida são pura ficção, Jerônimo, ao contrário, na mesma época, assume uma visão quase favorável, pois, após ler Filóstrato, escreve que Apolônio encontrou em toda parte algo para aprender e algo pelo qual pudesse tornar-se um homem melhor. No início do século V, também Agostinho, embora ridicularize qualquer tentativa de comparação entre Apolônio e Jesus, diz que o caráter do tianeano era "muito superior" ao atribuído a Júpiter, no que diz respeito à virtude.

§

* Arnóbio, *Ad versus Nationes*, i. 52; ed. Hildebrand (Halle; 1844), p. 86. O Padre da Igreja, no entanto, com aquela exclusividade peculiar à visão judaico-cristã, omite Moisés da lista dos Magos.

† João Crisóstomo, *Ad versus Judaeos*, v. 3 (p. 631); *De Laudibus Sancti Pauli Apost.*, Homil., iv. (p. 493 D.; ed. Montfaucon).

‡ Jerônimo, *Ep. ad Paullinum*, 53 (texto ap. Kayser, praef. ix.).

§ Agostinho, *Epp.*, cxxxviii.

Texto citado por Legrand d'Aussy, op. cit., p.

O APOLÔNIO NA OPINIÃO PRIMITIVA.

Na mesma época, encontramos também Isidoro de Pelúsio, que morreu em 450, negando categoricamente que haja qualquer verdade na afirmação feita por "certos", que ele não especifica melhor, de que Apolônio de Tiana "consagrou muitos lugares em muitas partes do mundo para a segurança dos habitantes".* É instrutivo comparar a negação de Isidoro com a passagem que já citamos de Pseudo-Justino.

O escritor de *Questões e Respostas aos Ortodoxos* no século II não podia resolver a questão com uma negação categórica; ele teve de admiti-la e argumentar o caso com base em outros fundamentos — a saber, a agência do Diabo.

Tampouco pode o argumento dos Padres, de que Apolônio usava magia para produzir seus resultados, enquanto os cristãos iletrados podiam realizar curas maravilhosas por uma única palavra, ser aceito como válido pelo crítico imparcial, pois não há evidência que sustente a alegação de que Apolônio empregasse tais métodos em seus feitos maravilhosos; ao contrário, tanto o próprio Apolônio quanto seu biógrafo Filóstrato repudiam veementemente a acusação de magia que contra ele foi lançada.

Por outro lado, poucos anos depois, Sidônio Apolinário, Bispo de Clermont, fala nos mais

* Isidoro Pelusiota, Epp., p. 138; ed. J. Billius (Paris; 1585).

† Ver Arnóbio, loc. cit.


altos termos de Apolônio.

Sidônio traduziu a Vida de Apolônio para o latim, dedicando-a a Leão, conselheiro do rei Eurico, e ao escrever ao seu amigo diz: "Lê a vida de um homem que (à parte a religião) se assemelha a ti em muitas coisas; um homem procurado pelos ricos, mas que nunca procurou riquezas; que amou a sabedoria e desprezou o ouro; um homem frugal em meio aos banquetes, vestido de linho em meio aos que se vestiam de púrpura, austero em meio ao luxo... Em suma, para falar claramente, talvez nenhum historiador encontrará nos tempos antigos um filósofo cuja vida se iguale à de Apolônio."*

Assim, vemos que mesmo entre os Padres da Igreja as opiniões estavam divididas; enquanto entre os próprios filósofos o louvor de Apolônio era sem reservas.

Pois Amiano Marcelino, "o último súdito de Roma que compôs uma história profana em língua latina", e amigo de Juliano, o filósofo-imperador, refere-se ao tianense como "aquele filósofo renomadíssimo";† enquanto poucos anos depois Eunápio, discípulo de Crisâncio, um dos mestres de Juliano, escrevendo nos últimos anos do século IV, diz que

* Sidônio Apolinário, Epp., viii. 3. Também Fabrício, Bibliotheca Graeca, pp. 549, 565 (ed. Harles). A obra de Sidônio sobre Apolônio infelizmente está perdida.

† Amplissimus ille philosophus (xxiii. 7). Ver também xxi. 14; xxiii.

A APOLÔNIO DA OPINIÃO PRIMITIVA.

Apolônio foi mais do que um filósofo; ele foi "um termo médio, por assim dizer, entre deuses e homens".* Não apenas foi Apolônio um adepto da filosofia pitagórica, mas "ele exemplificou plenamente o lado mais divino e prático dela". Na verdade, Filóstrato deveria ter chamado sua biografia de "A Permanência de um Deus entre os Homens".† Essa estimativa aparentemente exagerada pode talvez encontrar explicação no fato de que Eunápio pertencia a uma escola que conhecia a natureza das realizações atribuídas a Apolônio.

De fato, "já no século V encontramos um certo Volusiano, procônsul da África, descendente de uma antiga família romana e ainda fortemente apegado à religião de seus ancestrais, quase adorando Apolônio de Tiana como um ser sobrenatural".‡

* τὸ θεῶν τε καὶ ἀνθρώπων μέσον, significando com isso presumivelmente alguém que alcançou o grau de ser superior ao homem, mas ainda não igual aos deuses.

Isso era chamado pelos gregos de ordem "demoníaca".

Mas a palavra "demônio", devido à amargura sectária, foi há muito degradada de seu antigo e elevado estado, e a ideia original é agora significada na linguagem popular pelo termo "anjo". Compare Platão, *Symposium*, xxiii., πᾶν τὸ δαιμόνιον μεταξύ ἐστι θεοῦ τε καὶ θνητοῦ, "tudo o que é demoníaco está entre Deus e o homem".

† Eunápio, *Vitae Philosophorum*, Prooemium, vi.; ed. Boissonade (Amsterdã; 1822), p. 3.

‡ Réville, *Apolônio de Tiana* (trad. do francês), p. 56 (Londres; 1866). Não consegui, no entanto, descobrir com base em que autoridade essa afirmação é feita.

APOLÔNIO DE TIANA,

Mesmo após a queda da filosofia, encontramos Cassiodoro, que passou os últimos anos de sua longa vida em um mosteiro, referindo-se a Apolônio como o "renomado filósofo".* Assim também entre os escritores bizantinos, o monge Jorge Sincelo, no século VIII, refere-se várias vezes ao nosso filósofo, e não apenas sem a menor crítica adversa, mas declara que ele foi o primeiro e o mais notável de todas as pessoas ilustres que apareceram sob o Império.† Tzetzes também, o crítico e gramático, chama Apolônio de "todo-sábio e pré-conhecedor de todas as coisas".‡

E embora o monge Xifilino, no século XI, em uma nota ao seu resumo da história de Dião Cássio, chame Apolônio de hábil malabarista e mago, § contudo Cedreno, no mesmo século, confere a Apolônio o nada desagradável título de "filósofo pitagórico adepto", || e relata vários exemplos da eficácia de seus poderes

* Insignis philosophus; ver seu Chronicon, escrito até o ano 519.

† In sua Chronographia.

Ver Legrand d'Aussy, op. cit., p. 313.

‡ Chiliades, ii. 60.

§ Citado por Legrand d'Aussy, op. cit., p. 286.

|| φιλόσοφος Πυθαγόρειος στοιχειωματικός — Cedreno, Compendium Historiarum, i. 346; ed. Bekker.

A palavra que traduzi por "adepto" significa aquele "que tem poder sobre os elementos".

O APOLÔNIO DA OPINIÃO ANTIGA.

em Bizâncio.

De fato, se podemos acreditar em Nicetas, ainda no século XIII havia em Bizâncio certas portas de bronze, anteriormente consagradas por Apolônio, que tiveram de ser derretidas porque se haviam tornado objeto de superstição até mesmo para os próprios cristãos.

Se a obra de Filostrato tivesse desaparecido com o resto das Vidas, o acima seria tudo o que saberíamos sobre Apolônio.

† Pouco o suficiente, é verdade, para um caráter tão distinto, porém amplo o bastante para mostrar que, com exceção do preconceito teológico, os sufrágios da antiguidade estavam todos a favor do nosso filósofo.

* Legrand d'Aussy, op. cit., p. 308. † Se excetuarmos as Cartas disputadas e algumas citações de um dos escritos perdidos de Apolônio.

SEÇÃO V.

TEXTOS, TRADUÇÕES E LITERATURA.

Passaremos agora aos textos, traduções e literatura geral do assunto em tempos mais recentes.

Apolônio retornou à memória do mundo, após o esquecimento da Idade das Trevas, sob maus auspícios.

Desde o início, a antiga controvérsia Hierocles-Eusébio foi reavivada, e todo o assunto foi imediatamente retirado da calma região da filosofia e da história e lançado mais uma vez na arena tempestuosa da amargura e do preconceito religiosos.

Durante muito tempo, Aldus hesitou em imprimir o texto de Filóstrato e só finalmente o fez (em 1501) com o texto de Eusébio como apêndice, para que, como ele piedosamente o expressa, "o antídoto pudesse acompanhar o veneno". Junto com ele apareceu uma tradução latina do florentino Rinucci.*

* Philostratus de Vita Apollonii Tyanei Libri Octo, trad. por A. Rinuccinus, e Eusebius contra Hieroclem, trad. por Z. Acciolus (Veneza; 1501-04, fol.). A tradução de Rinucci foi aprimorada por Beroaldus e impressa em Lyon (1504?), e novamente em Colônia, 1534.

TEXTOS, TRADUÇÕES E LITERATURA.

Além da versão latina, o século XVI também produziu uma tradução italiana e uma francesa.†

A *editio princeps* de Aldus foi superada um século depois pela edição de Morel, que, por sua vez, foi seguida um século ainda mais tarde pela de Olearius.§ Quase um século e meio depois, o texto de Olearius foi superado pelo de Kayser (o primeiro texto crítico), cuja obra, em sua última edição, contém o mais recente aparato crítico.‖

Todas as informações referentes aos manuscritos serão encontradas nos Prefácios Latinos de Kayser.

* F. Baldelli, Filostrato Lemnio della Vita di Apollonio Tianeo (Florença; 1549, 8vo).

† B. de Vignere, Philostrate de la Vie d'Apollonius (Paris; 1596, 1599, 1611). A tradução de Blaise de Vignere foi posteriormente corrigida por Frederic Morel e mais tarde por Thomas Artus, Sieur d'Embry, com notas bombásticas nas quais ele ataca amargamente os feitos milagrosos de Apolônio.

Uma tradução francesa também foi feita por Th. Sibilet por volta de 1560, mas nunca publicada; o manuscrito estava na Bibliothèque Impériale.

Ver Miller, Journal des Savants, 1849, p. 625, citado por Chassang, op. infr. cit., p. iv.

‡ F. Morellus, Philostrati Lemnii Opera, Gr. e Lat. (Paris; 1608).

§ G. Olearius, Philostratorum quae supersunt Omnia, Gr. e Lat. (Leipzig; 1709).

‖ C. L. Kayser, Flavii Philostrati quae supersunt, etc.

(Zurique; 1844, 4to). Em 1849, A. Westermann também editou um texto, *Philostratorum et Callistrati Opera*, na "Scriptorum Græcorum Bibliotheca" de Didot (Paris; 1849, 8vo). Mas Kayser publicou uma nova edição em 1853 ("?"), e novamente uma terceira, com informações adicionais no Prefácio, na "Bibliotheca Teubneriana" (Leipzig; 1870).


Agora tentaremos dar uma ideia da literatura geral sobre o assunto, para que o leitor possa observar algumas das variadas vicissitudes da guerra de opiniões nas indicações bibliográficas.

E se o leitor comum se mostrar impaciente com a matéria e ansioso por chegar a algo de maior interesse, poderá facilmente omitir sua leitura; enquanto, se for um amante do caminho místico e não sentir prazer em controvérsias acaloradas, poderá ao menos simpatizar com o escritor, que foi compelido a examinar as obras do último século e uma boa dúzia das dos séculos anteriores, antes de ousar formar uma opinião própria com a consciência tranquila.

O preconceito sectário contra Apolônio caracteriza quase todas as opiniões anteriores ao século XIX. Dos livros distintamente dedicados ao assunto, as obras do Abade Dupin* e de de Tillemont† são ataques amargos

* Para um resumo geral das opiniões anteriores a 1807, de escritores que mencionam Apolônio incidentalmente, ver Legrand d'Aussy, op. cit., ii. pp. 313-327.

† L'Histoire d'Apollone de Tyane convaincue de Fausseté et d'Imposture (Paris; 1705).

‡ An Account of the Life of Apollonius Tyaneus (Londres; 1702), traduzido do francês, do vol. ii. da Histoire des Empereurs de Lenain de Tillemont (2ª ed., Paris; 1720): ao qual se acrescentam Algumas Observações sobre Apolônio.

A visão de de Tillemont é que Apolônio foi enviado pelo Diabo para destruir a obra do Salvador.

TEXTOS, TRADUÇÕES E LITERATURA.

contra o Filósofo de Tiana, em defesa do monopólio dos milagres cristãos; enquanto as do Abade Houtteville* e de Lüderwald† são menos violentas, embora na mesma linha.

Um escritor pseudônimo do século XVIII, no entanto, traça uma linha um tanto diferente ao classificar juntos os milagres dos Jesuítas e outras Ordens Monásticas com os de Apolônio, e ao rotulá-los todos como espúrios, enquanto sustenta a autenticidade exclusiva dos de Jesus.

No entanto, Bacon e Voltaire falam de Apolônio nos mais altos termos,§ e mesmo um século antes deste último, o Deísta inglês, Charles Blount,|| levantou sua voz contra o

*  *Um Discurso Crítico e Histórico sobre o Método dos Principais Autores que escreveram a favor e contra o Cristianismo desde seu Início* (Londres; 1739), traduzido do francês do Abade Houtteville; ao qual se acrescenta uma "Dissertação sobre a Vida de Apolônio de Tiana, com algumas Observações sobre os Platônicos da Escola Posterior", pp. 213-254.

†  *Anti-Hierocles, ou Jesus Cristo e Apolônio de Tiana em sua grande Desigualdade*, apresentado por J. B. Lüderwald (Halle; 1793).

‡  *Phileleutherus Helvetius, Sobre os Milagres atribuídos a Pitágoras, Apolônio de Tiana, Francisco de Assis, Domingos e Inácio de Loyola* (Draci; 1734).

§  Ver Legrand d'Aussy, op. cit., ii. p. 314, onde os textos são fornecidos.

||  *Os Dois Primeiros Livros de Filóstrato sobre a Vida de Apolônio de Tiana* (Londres; 1680, fólio). As notas de Blount (geralmente atribuídas a Lord Herbert) levantaram tamanha celeuma que o livro foi condenado em 1693, e poucos vitupério universal derramado sobre o caráter do tianeano; sua obra, no entanto, foi rapidamente suprimida.


Em meio a essa guerra sobre milagres no século XVIII, é agradável notar o breve tratado de Herzog, que se esforça por traçar um esboço da filosofia e da vida religiosa de Apolônio, mas, infelizmente! não houve seguidores de exemplo tão liberal neste século de contendas.

Até aqui, então, a literatura anterior sobre o assunto.

Francamente, nada disso vale a pena ler; o problema não podia ser considerado com calma em tal período.

Começou no falso terreno da controvérsia de Hierocles-Eusébio, que não passou de um incidente (pois a operação de maravilhas é comum a todos os grandes mestres e não peculiar a Apolônio ou a Jesus), e foi exacerbada pelo surgimento do Enciclopedismo e do racionalismo do período da Evolução.

Não que a controvérsia dos milagres tenha cessado mesmo no século passado; ela

cópias existem.

As notas de Blount foram, no entanto, traduzidas para o francês um século depois, nos dias do Enciclopedismo, e anexadas a uma versão francesa da Vita, sob o título, *Vie d'Apollonius de Tyane par Philostrate avec les Commentaires donnes en Anglois par Charles Blount sur les deux Premiers Livres de cet Ouvrage* (Amsterdã; 1779, 4 vols., 8vo), com uma dedicatória irônica ao Papa Clemente XIV, assinada "Philalethes".

*  *Philosophiam Practicam Apollonii Tyanaei in Sciagraphia, exponit M. lo. Christianus Herzog* (Leipzig; 1709); uma oração acadêmica de 20 pp.

TEXTOS, TRADUÇÕES E LITERATURA.

não obscurece mais, contudo, todo o horizonte, e o sol de um julgamento mais calmo pode ser visto rompendo através da névoa.

A fim de tornar o restante de nosso resumo mais claro, anexamos ao final deste ensaio os títulos das obras que surgiram desde o início do século XIX, em ordem cronológica.

Um olhar sobre esta lista mostrará que o último século produziu uma tradução inglesa (a de Berwick), uma italiana (a de Lancetti), uma francesa (a de Chassang) e duas alemãs (as de Jacobs e Baltzer).* A Rev.

A tradução de E. Berwick é a única versão inglesa; em seu Prefácio, o autor, ao afirmar a falsidade do elemento milagroso na Vida, diz que o restante da obra merece atenção cuidadosa.

Nenhum dano advirá à religião cristã por sua leitura, pois não há alusões à Vida de Cristo nela, e os milagres são baseados naqueles atribuídos a Pitágoras.

Este é certamente um ponto de vista mais saudável do que o da controvérsia teológica tradicional, que, infelizmente, no entanto, foi revivida.

* Filóstrato é um autor difícil de traduzir; no entanto, Chassang e Baltzer tiveram muito êxito com ele; Berwick também é legível, mas na maioria dos lugares nos dá uma paráfrase em vez de uma tradução e frequentemente erra o sentido.

As traduções de Chassang e Baltzer são, de longe, as melhores.


novamente pela grande autoridade de Baur, que viu em vários dos primeiros documentos da era cristã (notavelmente os Atos canônicos) escritos de tendência, de escasso conteúdo histórico, representando as vicissitudes de escolas e partidos, e não as histórias reais de indivíduos.

A Vida de Apolônio era um desses escritos de tendência; seu objetivo era apresentar uma visão oposta ao cristianismo em favor da filosofia.

Baur assim divorciou todo o assunto de seu ponto de vista histórico e atribuiu a Filóstrato um esquema elaborado do qual ele era inteiramente inocente.

A visão de Baur foi amplamente adotada por Zeller em sua Philosophie der Griechen (v. 140), e por Réville na Holanda.

Essa teoria do "Christusbild" (levada por alguns extremistas ao ponto de negar que Apolônio jamais tenha existido) teve grande voga entre os escritores sobre o assunto, especialmente compiladores de artigos de enciclopédias; é, de qualquer forma, uma questão mais ampla do que a tradicional disputa sobre milagres, que foi novamente revivida em toda a sua antiga estreiteza por Newman, que apenas usa Apolônio como desculpa para uma dissertação sobre milagres ortodoxos, à qual dedica dezoito páginas das vinte e cinco de seu tratado.

Noack também segue Baur, e até certo ponto Pettersch, embora leve o assunto para o terreno da filosofia; enquanto Mockeberg, pastor de São Nicolau em Hamburgo, embora se esforce por ser justo com Apolônio, termina sua dissertação coloquial com uma explosão de louvores ortodoxos a Jesus, louvores que de modo algum invejamos, mas que são inteiramente fora de lugar em tal assunto.

TEXTOS, TRADUÇÕES E LITERATURA.

O desenvolvimento da controvérsia sobre os milagres de Jesus-Apolônio, transformada em batalha de Jesus-contra-Apolônio e até mesmo de Cristo-contra-o-Anticristo, travada com revezamentos de defensores vigorosos de um lado contra um débil protesto, na melhor das hipóteses, do outro, é um espetáculo doloroso de se contemplar.

Quão tristemente Jesus e Apolônio devem ter observado, e ainda observam, essa luta amarga e inútil em torno de suas santas pessoas.

Por que a posteridade deveria colocar suas memórias uma contra a outra? Eles se opuseram um ao outro em vida? Nem mesmo seus biógrafos o fizeram após suas mortes? Por que, então, a controvérsia não pôde cessar com Eusébio? Pois Lactâncio admite francamente o ponto apresentado por Hierocles (para exemplificar o qual Hierocles apenas se referiu a Apolônio como um exemplo entre muitos) — de que "milagres" não provam divindade.

Fundamos nossas alegações, diz Lactâncio, não em milagres, mas no cumprimento da profecia.* Tivesse essa posição mais sensata sido reavivada

* Isso teria ao menos restaurado Apolônio ao seu ambiente natural e confinado a questão da divindade de Jesus ao seu devido terreno judaico-cristão.


em vez da de Eusébio, o problema de Apolônio teria sido considerado em seu ambiente histórico natural há quatrocentos anos, e muita tinta e papel teriam sido poupados.

"Com o progresso do método crítico, contudo, a opinião finalmente recuperou em parte seu equilíbrio, e é agradável poder recorrer a obras que resgataram o assunto do obscurantismo teológico e o colocaram no campo aberto da pesquisa histórica e crítica.

Os dois volumes do pensador independente Legrand d'Aussy, que surgiram bem no início do século passado, são, para a época, notavelmente livres de preconceito e constituem uma louvável tentativa de imparcialidade histórica, mas a crítica ainda era jovem nesse período.

Kayser, embora não aprofunde a questão, decide que o relato de Filóstrato é puramente uma "fabularis narratio", mas é bem refutado por I. Müller, que defende um forte elemento de história como pano de fundo.

Mas, de longe, a melhor triagem das fontes é a de Jessen.* O estudo de Priaulx trata exclusivamente do episódio indiano e não tem valor crítico para a avaliação das fontes.

De todos os estudos anteriores, contudo, as obras de Chassang e Baltzer são as mais inteligentes em geral, pois ambos os escritores estão cientes das possibilidades da ciência psíquica, embora principalmente do ponto de vista insuficiente dos fenômenos espíritas.

Quanto ao volume um tanto pretensioso de Tredwell, que, por estar em inglês, é acessível ao leitor comum, ele é em grande parte reacionário e serve de disfarce para críticas adversas às origens cristãs a partir de um ponto de vista secularista que nega de antemão a possibilidade de "milagre" em qualquer acepção da palavra.

Uma massa de conhecidos assuntos numismáticos e outros, que é totalmente irrelevante, mas que parece ser nova e surpreendente para o autor, é introduzida, e um mapa é prefixado à página de rosto, supostamente fornecendo os itinerários de Apolônio, mas com pouca referência ao texto de Filóstrato.

De fato, em nenhum lugar Tredwell mostra que está trabalhando sobre o próprio texto, e o assunto em suas mãos é apenas uma desculpa para uma dissertação divagante sobre o primeiro século em geral, a partir de seu próprio ponto de vista.

Tudo isso é lamentável, pois, com exceção da tradução de Berwick, que é quase inencontrável, não temos nada de valor em inglês para o leitor comum,* exceto o breve esboço de Sinnett, que é descritivo em vez de crítico ou explicativo.

---

* Não posso oferecer opinião sobre o livro de Nielsen, por desconhecer o dinamarquês, mas ele tem toda a aparência de um tratado cuidadoso e erudito, com abundância de referências.

* O Cristo Pagão de Reville é uma verdadeira deturpação do assunto, e o tratamento de Newman sobre a matéria torna seu tratado um anacronismo para o século XX.

Até aqui, portanto, a história do Apolônio da opinião; voltemo-nos agora para o Apolônio de Filóstrato e tentemos, se possível, descobrir alguns vestígios do homem tal como ele foi na história, e a natureza de sua vida e obra.

SEÇÃO VI. O BIOGRAFO DE APOLÔNIO.

FLAVIO FILÓSTRATO, o escritor da única Vida de Apolônio que chegou até nós,* foi um distinto homem de letras que viveu no último quartel do segundo século e na primeira metade do terceiro (c. 175-245 d.C.). Ele fez parte do círculo de famosos escritores e pensadores reunidos em torno da imperatriz filósofa,† Julia Domna, que foi o espírito orientador do Império durante os reinados de seu marido Septímio Severo e de seu filho Caracala.

Todos os três membros da família imperial eram estudiosos da ciência oculta, e a época era eminentemente uma em que as artes ocultas, boas e más, eram uma paixão.

Assim, o cético Gibbon, em seu esboço de Severo e de sua famosa consorte, escreve:

"Como a maioria dos africanos, Severo era

* Consistindo de oito livros escritos em grego sob o título geral Τὰ ἐς τὸν Τυανέα Ἀπολλώνιον.

† Ἡ φιλόσοφος, ver artigo

"Philostratus" no Dicionário de Biografia Grega e Romana de Smith

(Londres; 1870), III. 3276.


apaixonadamente afeiçoado aos vãos estudos da magia e da adivinhação, profundamente versado na interpretação de sonhos e presságios, e perfeitamente familiarizado com a ciência da astrologia judiciária, que em quase todas as épocas, exceto a presente, manteve seu domínio sobre a mente do homem.

Ele havia perdido sua primeira esposa enquanto era governador da Gália Lionense.

Na escolha de uma segunda, buscou apenas conectar-se com alguma favorita da fortuna; e assim que descobriu que uma jovem de Emesa, na Síria, tinha um nascimento real,* solicitou e obteve sua mão.

Julia Domna† (pois esse era seu nome) merecia tudo o que as estrelas podiam prometer-lhe.

Possuía, mesmo em idade avançada,‡ os atrativos da beleza, e unia a uma imaginação viva uma firmeza de mente e uma força de julgamento raramente concedidas ao seu sexo."

Suas amáveis qualidades nunca causaram impressão profunda no temperamento sombrio e ciumento de seu marido,§ mas no reinado de seu filho, ela administrou os principais assuntos do Império com uma prudência que sustentava sua autoridade, e com uma moderação que às vezes corrigia

* Os itálicos são de Gibbon.

f Mais corretamente Domna Julia; Domna não sendo uma forma abreviada de Domina, mas o nome sírio da imperatriz.

J Ela morreu em A.D. 217.

§ O contrário é sustentado por outros historiadores.

O BIÓGRAFO DE APOLÔNIO.

seus extravagantes excessos.

Julia dedicou-se às letras e à filosofia com algum sucesso, e com a mais esplêndida reputação.

Ela era a patrona de todas as artes e a amiga de todo homem de gênio."*

Vemos assim, mesmo a partir da estimativa um tanto relutante de Gibbon, que Domna Julia era uma mulher de caráter notável, cujos atos exteriores dão evidência de um propósito interior, e cuja vida privada não foi escrita.

Foi a seu pedido que Filóstrato escreveu a Vida de Apolônio, e foi ela quem lhe forneceu certos manuscritos

que estavam em sua posse, como base; pois a bela filha de Bassiano, sacerdote do sol em Emesa, era uma ávida colecionadora de livros de todas as partes do mundo, especialmente dos manuscritos

de filósofos e de memorandos e notas biográficas relativas aos famosos estudiosos da natureza íntima das coisas.

Que Filóstrato fosse o melhor homem a quem confiar tão importante tarefa, é duvidoso.

É verdade que ele era um estilista habilidoso e um homem de letras experiente, um crítico de arte e um ardoroso antiquário, como podemos ver em suas outras obras; mas ele era um sofista mais do que um filósofo, e embora um admirador entusiasta de Pitágoras e sua escola, o era à distância, encarando-a antes através de uma atmosfera de curiosidade amante do maravilhoso e dos embelezamentos de uma imaginação viva do que de um conhecimento pessoal de sua disciplina, ou de um conhecimento prático daquelas forças ocultas da alma com as quais seus adeptos lidavam.

* Declínio e Queda de Gibbon, I. vi.


Temos, portanto, de esperar um esboço da aparência de uma coisa por alguém de fora, em vez de uma exposição da coisa em si por alguém de dentro.

Segue-se o relato de Filóstrato sobre as fontes das quais derivou suas informações a respeito de Apolônio: *

"Reuni meus materiais em parte das cidades que o amavam, em parte dos templos cujos ritos e regulamentos ele restaurou de seu antigo estado de abandono, em parte do que outros disseram sobre ele, e em parte de suas próprias cartas.† Informações mais detalhadas obtive da seguinte maneira.

Dâmis era um homem de alguma educação que outrora costumava

* Uso as edições de 1846 e 1870 do texto de Kayser em toda parte.

† Uma coleção dessas cartas (mas não todas) estivera em posse do Imperador Adriano (117–138 d.C.) e fora deixada em seu palácio em Ântio (viii. 20). Isso prova a grande fama que Apolônio desfrutou logo após seu desaparecimento da história, e enquanto ainda era uma memória viva.

Deve-se notar que Adriano era um governante esclarecido, um grande viajante, um amante da religião e um iniciado nos Mistérios de Elêusis.

O BIÓGRAFO DE APOLÔNIO.

viver na antiga cidade de Nino.* Tornou-se discípulo de Apolônio e registrou suas viagens, nas quais diz ele próprio ter participado, bem como as opiniões, ditos e predições de seu mestre.

Um membro da família de Dâmis trouxe à Imperatriz Júlia os cadernos de anotações† contendo essas memórias, que até então não haviam sido conhecidas. Como eu era um do círculo dessa princesa, que era amante e patrona de todas as produções literárias, ela me ordenou que reescrevesse esses esboços e melhorasse sua forma de expressão, pois embora o nino se expressasse com clareza, seu estilo estava longe de ser correto.

Também tive acesso a um livro de Máximo de Égide‡ que continha todas as ações de Apolônio em Égide.

§ Há também um testamento escrito por Apolônio, do qual podemos aprender como ele quase deificou a filosofia.

|| Quanto aos quatro livros de Moerágenes¶ sobre Apolônio, eles não merecem

* Nínive.

† Τὰς δέλτους, tabletes de escrita.

Isto sugere que o relato de Damis não poderia ter sido muito volumoso, embora Filóstrato, mais adiante, afirme sua natureza detalhada (i. 19).

| Um dos secretários imperiais da época, famoso por sua eloquência e tutor de Apolônio.

§ Uma cidade não muito distante de Tarso.

|| 0)5 •VTroOcid&v rrjv <iAocro<iav eyevero. O termo V7ro0cid&v ocorre apenas nesta passagem, e por isso não estou muito certo de seu significado.

IT Esta Vida de Moeragenes é mencionada casualmente por APOLÔNIO DE TIANA.

"atenção, pois ele nada sabe sobre a maioria dos fatos de sua vida" (i. 2, 3).

Estas são as fontes às quais Filóstrato deveu suas informações, fontes que, infelizmente, não nos são mais acessíveis, exceto talvez algumas cartas.

Tampouco Filóstrato poupou esforços para reunir informações sobre o assunto, pois em suas palavras finais (viii. 31), ele nos diz que ele próprio viajou pela maior parte do "mundo" e em toda parte encontrou os "ditos inspirados"* de Apolônio, e que ele era especialmente bem familiarizado com o templo dedicado à memória de nosso filósofo em Tiana e fundado às custas imperiais ("pois os imperadores o julgaram não indigno de honras semelhantes às deles"), cujos sacerdotes, presume-se, haviam reunido o máximo de informações que puderam sobre Apolônio.

Origenes, Contra Celsum, vi. 41 ; ed. Lommatzseh (Berlin ; 1841), ii. 373. * Xoyots

O BIOGRAFO DE APOLÔNIO.

"embelezou" a narrativa com inúmeras notas e acréscimos próprios e com a composição de discursos preparados.

Agora, como os escritores antigos não separavam suas notas do texto, nem as indicavam de qualquer forma distinta, temos de estar constantemente em guarda para distinguir as fontes originais das glosas do escritor. Na verdade, Filostrato aproveita-se sempre da menção de um nome ou assunto para exibir seu próprio conhecimento, que é frequentemente de natureza mais lendária e fantástica.

Este é especialmente o caso em sua descrição das viagens indianas de Apolônio.

A Índia, naquela época e muito depois, era considerada o "fim do mundo", e uma infinidade dos mais estranhos "contos de viajantes" e fábulas mitológicas circulavam a seu respeito. Basta ler os relatos dos escritores sobre a Índia†, desde a época de Alexandre em diante, para descobrir a fonte da maioria dos estranhos incidentes que Filostrato registra como experiências de Apolônio.

Para citar apenas um exemplo entre cem, Apolônio teve de cruzar o Cáucaso, um nome indefinido para o grande sistema de cadeias montanhosas que limita as fronteiras setentrionais de Aryavarta.

Prometeu foi acorrentado ao Cáucaso, como toda criança ouvira contar durante séculos.

Portanto, se Apolônio cruzou o Cáucaso, ele deve ter visto aquelas correntes.

E assim foi, assegura-nos Filostrato (ii. 3). Não só isso, mas ele acrescenta voluntariamente a informação adicional de que não se podia dizer de que eram feitas! Uma leitura de Megasthenes, no entanto, reduzirá rapidamente o longo relato filostratiano das viagens indianas de Apolônio (i. 41 – iii.

* Raramente temos uma indicação tão clara, por exemplo, como em i. 25; "O seguinte é o que / pude aprender . . . sobre a Babilônia."

† Ver E. A. Schwanbeck, Megasthenis Indica (Bonn; 1846), e J. W. M'Crindle, Ancient India as described by Megasthenes and Arrian (Calcutá, Bombaim, Londres; 1877), The Commerce and Navigation of the Erythraean Sea (1879), Ancient India as described by Ktesias (1882), Ancient India as described by Ptolemy (Londres; 1885), e The Invasion of India by Alexander the Great (Londres; 1893, 1896).


58) a um âmbito muito restrito, pois página após página é simplesmente enchimento, colhido de qualquer um dos numerosos *Indica* aos quais nosso autor, muito lido, tinha acesso. A julgar por tais escritores, Porust (o Rajá conquistado por Alexandre) era o rei imemorial da Índia.

Na verdade, ao falar da Índia ou de qualquer outro país pouco conhecido, um escritor daqueles dias tinha que incluir toda a lenda popular associada a ele, ou teria pouca chance de ser ouvido. Ele tinha

* Outro bom exemplo disso é visto na dissertação sobre elefantes que Filóstrato extrai da *História da Líbia* de Juba (ii. 13 e 16).

† Talvez um título, ou o rei dos Purus.

O BIÓGRAFO DE APOLÔNIO.

que dar ao seu relato uma "cor local", e isso era especialmente o caso em um esforço retórico técnico como o de Filóstrato.

Além disso, era moda inserir discursos preparados e colocá-los na boca de personagens bem conhecidos em ocasiões históricas, bons exemplos disso podem ser vistos em Tucídides e nos Atos dos Apóstolos.

Filóstrato faz isso repetidamente.

Mas seria muito longo entrar em uma investigação detalhada do assunto, embora o escritor tenha preparado notas sobre todos esses pontos, pois isso seria escrever um volume e não um esboço.

Apenas alguns pontos são, portanto, registrados, para alertar o estudante a estar sempre em guarda para separar Filóstrato de suas fontes.*

Mas embora devamos estar profundamente cientes da importância de uma atitude totalmente crítica quando se trata de fatos definidos da história, devemos igualmente estar em guarda contra julgar tudo do ponto de vista de preconcepções modernas.

Há apenas uma literatura religiosa da antiguidade que foi tratada com real simpatia no Ocidente, e essa é a judaico-cristã; somente nela os homens têm sido

* Não que Filóstrato faça qualquer disfarce de seus embelezamentos; veja, por exemplo, ii. 17, onde ele diz: "Deixe-me, no entanto, adiar o que tenho a dizer sobre o assunto das serpentes, da maneira de caçá-las, da qual Damis dá uma descrição." treinado para se sentir em casa, e tudo o que na antiguidade trata da religião de modo diferente do modo judaico ou cristão é sentido como estranho e, se obscuro ou extraordinário, até mesmo repulsivo.


Os ditos e feitos dos profetas judeus, de Jesus e dos Apóstolos são narrados com reverência, adornados com as maiores belezas de dicção e iluminados com o melhor pensamento da época; enquanto os ditos e feitos de outros profetas e mestres foram, em sua maior parte, submetidos à mais insensível crítica, na qual nenhuma tentativa é feita para compreender seu ponto de vista.

Se a justiça imparcial tivesse sido distribuída por toda parte, o mundo de hoje teria sido mais rico em simpatia, em amplitude de mente, em compreensão da natureza, da humanidade e de Deus, em suma, em experiência da alma.

Portanto, ao ler a Vida de Apolônio, lembremo-nos de que temos de olhá-la através dos olhos de um grego, e não através dos de um judeu ou de um protestante.

Os Muitos, em sua esfera própria, devem ser para nós uma manifestação do Divino tão autêntica quanto o Um ou o Todo, pois, de fato, os "Deuses" existem apesar de mandamentos e credos.

Os Santos, os Mártires e os Anjos aparentemente tomaram os lugares dos Heróis, dos Daimones e dos Deuses, mas a mudança de nome e a mudança de ponto de vista entre os homens afetam muito pouco os fatos imutáveis.

Perceber

O BIÓGRAFO DE APOLÔNIO.

os fatos da religião universal sob os nomes sempre mutáveis que os homens lhes atribuem, e então entrar com plena simpatia e compreensão nas esperanças e temores de cada fase da mente religiosa — ler, por assim dizer, as vidas passadas de nossas próprias almas — é uma tarefa dificílima.

Mas até que possamos nos colocar compreensivamente no lugar dos outros, nunca poderemos ver mais do que um lado da Vida Infinita de Deus.

Um estudante de religião comparada não deve recear os termos; não deve estremecer ao encontrar "politeísmo", nem recuar horrorizado ao deparar-se com "dualismo", nem sentir maior satisfação quando se depara com "monoteísmo"; não deve sentir reverência ao pronunciar o nome de Yahweh e desprezo ao proferir o nome de Zeus; não deve imaginar um sátiro ao ler a palavra "daemon", nem conceber um sonho alado de beleza ao pronunciar a palavra "anjo". Para ele, heresia e ortodoxia não devem existir; ele vê apenas sua própria alma lentamente elaborando sua própria experiência, olhando a vida de todos os pontos de vista possíveis, para que, porventura, por fim, ele possa ver o todo, e tendo visto o todo, possa tornar-se um com Deus.

Para Apolônio, a mera moda da fé de um homem era inessencial; ele estava em casa em todas as terras, entre todos os cultos.

Ele tinha uma palavra útil para todos, um conhecimento íntimo do caminho particular de cada um deles, que o habilitava a restaurá-los à saúde.


Tais homens são raros; os registros de tais homens são preciosos e não requerem os ornamentos de nenhum retórico.

Tentemos então, antes de tudo, recuperar o esboço da vida externa inicial e das viagens de Apolônio, despojado dos ornamentos de Filóstrato, e então nos esforcemos para considerar a natureza de sua missão, a maneira da filosofia que ele tão profundamente amava e que era para ele sua religião, e por último, se possível, o caminho de sua vida interior.

SEÇÃO VII.

VIDA INICIAL.

APOLÔNIO nasceu em Tiana, uma cidade no sul da Capadócia, em algum momento nos primeiros anos da era cristã.

Seus pais eram de família antiga e considerável fortuna (i. 4). Desde tenra idade deu sinais de uma memória muito poderosa e disposição estudiosa, e era notável por sua beleza.

Aos quatorze anos foi enviado a Tarso, um famoso centro de aprendizado da época, para completar seus estudos.

Mas a mera retórica e o estilo e a vida das "escolas" eram pouco adequados à sua disposição séria, e ele rapidamente partiu para Égeas, uma cidade na costa marítima a leste de Tarso.

Aqui encontrou ele um ambiente mais adequado às suas necessidades e mergulhou com ardor no estudo da filosofia.

Tornou-se íntimo dos sacerdotes do templo de Esculápio, onde ainda se realizavam curas, e

*  Lendas sobre os acontecimentos maravilhosos de seu nascimento circulavam, e são da mesma natureza de todas as lendas de nascimento de grandes personagens.


desfrutou da companhia e do ensino de discípulos e mestres das escolas de filosofia platônica, estoica, peripatética e epicurista; mas, embora estudasse todos esses sistemas de pensamento com atenção, foi nas lições da escola pitagórica que ele se apoderou com uma profundidade extraordinária de compreensão, e isso, também, embora seu mestre, Euxeno, fosse apenas um papagaio das doutrinas e não um praticante da disciplina.

Mas tal papaguear não bastava para o espírito ávido de Apolônio; sua extraordinária "memória", que infundia vida nas enfadonhas declarações de seu tutor, impelia-o adiante, e aos dezesseis anos "ele se elevou à vida pitagórica, alado por alguém maior." † No entanto, ele manteve seu afeto pelo homem que lhe havia mostrado o caminho e o recompensou generosamente (i. 7).

Quando Euxeno lhe perguntou como ele começaria seu novo modo de vida, respondeu: "Assim como os médicos purgam seus pacientes." Por isso, recusou-se a tocar em qualquer coisa que tivesse vida animal, sob o fundamento de que isso densificava a mente e a tornava impura.

Considerava que a única forma pura de alimento era o que a terra produzia, frutas e vegetais.

Também se absteve do vinho, pois, embora fosse feito de frutas, "tornava turvo o

*  r i -"¥ Tlv o-otfiia i

† Sci., do que seu tutor; ou seja, a "memória" dentro dele, ou seu "daemon".

VIDA INICIAL.

éter * na alma" e "destruía a compostura da mente". Além disso, andava descalço, deixava o cabelo crescer e não vestia nada além de linho.

Ele agora vivia no templo, para admiração dos sacerdotes e com a expressa aprovação de Esculápio,† e rapidamente se tornou tão famoso por seu ascetismo e vida piedosa, que um ditado dos cilícios sobre ele se tornou provérbio (i. 8).

Aos vinte anos, seu pai morreu (sua mãe tendo morrido alguns anos antes), deixando uma considerável fortuna, que Apolônio deveria dividir com seu irmão mais velho, um jovem selvagem e dissoluto de vinte e três anos.

Sendo ainda menor de idade, Apolônio continuou a residir em Égide, onde o templo de Esculápio agora se tornara um movimentado centro de estudos, e ecoava de um extremo ao outro com o som de elevados discursos filosóficos.

Ao atingir a maioridade, retornou a Tiana para tentar resgatar seu irmão de sua vida viciosa.

Seu irmão aparentemente havia esgotado sua parte legal da propriedade, e Apolônio imediatamente cedeu metade de sua própria parte a ele, e com suas gentis admoestações o restaurou à sua virilidade.

Na verdade, ele parece ter dedicado seu tempo a pôr em ordem os assuntos da família, pois distribuiu o restante de seu patrimônio entre certos parentes seus, e guardou para si apenas uma parca ninharia; ele precisava de pouco, disse, e nunca se casaria (i. 13).

Ele então fez o voto de silêncio por cinco anos, pois estava determinado a não escrever sobre filosofia até ter passado por essa saudável disciplina.

Esses cinco anos foram passados principalmente na Panfília e na Cilícia, e embora passasse muito tempo em estudo, não se isolou em uma comunidade ou mosteiro, mas continuou se movendo e viajando de cidade em cidade.

As tentações para quebrar seu voto autoimposto eram enormes.

* Este éter era presumivelmente a substância mental.

† Isto é, presumivelmente, ele foi encorajado em seus esforços por aqueles ajudantes invisíveis do templo, por quem as curas eram realizadas por meio de sonhos, e ajuda era dada psiquicamente e mesmericamente.

‡ "Onde você está com pressa? Você está indo ver o jovem?"

Sua estranha aparência atraía a atenção de todos; o povo amante do riso fez do filósofo silencioso o alvo de seu espírito impiedoso, e toda a proteção que ele tinha contra suas zombarias e equívocos era a dignidade de seu porte e o olhar de seus olhos, que agora podiam ver tanto o passado quanto o futuro.

Muitas vezes esteve à beira de explodir contra algum insulto excepcional ou calúnia mentirosa, mas sempre se continha com as palavras: "Coração, sê paciente, e tu, minha língua, permanece em silêncio"* (i. 14). * Comparar Odisseia, xx. 18.

VIDA INICIAL.

Contudo, mesmo essa severa repressão do modo comum de falar não impediu seu bem-fazer.

Mesmo nessa tenra idade, ele já começara a corrigir abusos.

Com olhos, mãos e movimentos de cabeça, fazia-se entender, e em certa ocasião, em Aspendo, na Panfília, evitou um grave motim por causa de trigo ao silenciar a multidão com seus gestos imperiosos e depois escrever o que tinha a dizer em suas tábuas (i. 15).

Até aqui, aparentemente, Filóstrato tem dependido do relato de Máximo de Égeas, ou talvez apenas até a época em que Apolônio deixou Égide.

Há agora uma lacuna considerável na narrativa, e dois breves capítulos de generalidades vagas (i. 16, 17) são tudo o que Filóstrato pode apresentar como registro de uns quinze ou vinte* anos, até que as anotações de Dâmis comecem.

Após os cinco anos de silêncio, encontramos Apolônio em Antioquia, mas isso parece ser apenas um incidente em um longo ciclo de viagens e trabalho, e é provável que Filóstrato traga Antioquia à proeminência meramente porque o pouco que aprendera sobre esse período da vida de Apolônio, ele colheu nessa cidade tão frequentada.

* Estou inclinado a pensar, contudo, que Apolônio ainda era um homem jovem quando partiu para suas viagens à Índia, em vez de ter quarenta e seis anos, como alguns supõem.

Mas as dificuldades da maior parte da cronologia são insuperáveis.


Mesmo do próprio Filóstrato aprendemos incidentalmente mais tarde (i. 20; iv. 38) que Apolônio passara algum tempo entre os árabes e fora instruído por eles.

E por Arábia devemos entender o país ao sul da Palestina, que naquele período era um verdadeiro viveiro de comunidades místicas.

Os lugares que visitou ficavam em locais remotos, onde o espírito de santidade ainda perdurava, e não nas cidades populosas e conturbadas, pois o assunto de sua conversa, dizia ele, exigia "homens e não povos".* Passava o tempo viajando de um a outro desses templos, santuários e comunidades; do que podemos concluir que havia entre eles uma espécie de franco-maçonaria comum, por assim dizer, de natureza iniciática, que lhe abria as portas da hospitalidade.

Mas onde quer que fosse, mantinha sempre uma certa divisão regular do dia.

Ao nascer do sol, praticava certos exercícios religiosos a sós, cuja natureza comunicava apenas àqueles que haviam passado pela disciplina de um "quatro anos'" (¹ cinco anos') de silêncio.

Em seguida, conversava com os sacerdotes do templo ou com os chefes da comunidade, conforme estivesse hospedado em um templo grego ou não grego, com ritos públicos,

<f>ycras OVK avOpwTTutv eavrw Scti/, dXX*

VIDA    INICIAL.

ou em uma comunidade com disciplina própria, à parte do culto público.

Assim, esforçava-se por trazer os cultos públicos de volta à pureza de suas tradições antigas e por sugerir melhorias nas práticas das irmandades privadas.

A parte mais importante de seu trabalho era com aqueles que seguiam a vida interior e que já consideravam Apolônio um mestre do caminho oculto.

A esses seus companheiros (era/pou?) e discípulos (o/xtXTa?), dedicava muita atenção, estando sempre pronto a responder às suas perguntas e a dar conselhos e instruções.

Não que negligenciasse o povo; era seu costume invariável ensiná-lo, mas sempre depois do meio-dia; pois aqueles que viviam a vida interior,† dizia ele, deveriam ao amanhecer entrar na presença dos Deuses,‡ e então passar o tempo até o meio-dia dando e recebendo instrução nas coisas sagradas, e somente após o meio-dia dedicar-se aos assuntos humanos.

Isso é, a manhã era dedicada por Apolônio à ciência divina, e a tarde ao ensino da ética e da vida prática.

Após o trabalho do dia, ele se banhava em água fria, como faziam tantos dos místicos daqueles tempos naquelas terras, notadamente os essênios e os terapeutas (i. 16).

“Após essas coisas”, diz Filóstrato, tão vagamente quanto o escritor de uma narrativa evangélica, Apolônio decidiu visitar os brâmanes e os sramanas. O que induziu nosso filósofo a empreender uma jornada tão longa e perigosa não aparece em parte alguma em Filóstrato, que simplesmente diz que Apolônio achava bom para um jovem viajar.

É abundantemente evidente, contudo, que Apolônio nunca viajou meramente pelo prazer de viajar.

O que ele faz, faz com um propósito distinto.

E seus guias nessa ocasião, como ele assegura a seus discípulos que tentaram dissuadi-lo de seu intento e se recusaram a acompanhá-lo, eram a sabedoria e seu monitor interior (daemon). “Já que sois fracos de coração”, diz o peregrino solitário, “despeço-me de vós.

Quanto a mim, devo ir para onde quer que a sabedoria e meu eu interior me conduzam. Os deuses são meus conselheiros, e só posso confiar em seus conselhos” (i. 18).

* Isto é, os brâmanes e os budistas.

Sarman é a corrupção grega do sânscrito Shramana e do páli Samano, o termo técnico para um asceta ou monge budista.

A ignorância dos copistas transformou Sarmanes primeiro em Germanes e depois em Hircanianos!

† Isto mostra que Apolônio era ainda jovem, e não entre quarenta e cinquenta anos, como alguns afirmaram.

Tredwell (p. 77) data as viagens indianas como 41-54 d.C.

SEÇÃO VIII.

AS VIAGENS DE APOLÔNIO.

E assim Apolônio parte de Antioquia e segue para Nino, a relíquia da outrora grande Nínive.

Lá ele encontra Damis, que se torna seu companheiro constante e fiel discípulo.

“Vamos juntos”, diz Damis, em palavras que nos lembram um pouco as palavras de Rute.

“Tu seguirás a Deus, e eu a ti!” (i. 19).

A partir deste ponto, Filóstrato declara basear-se em grande parte na narrativa de Damis, e antes de prosseguir, é necessário tentar formar alguma estimativa do caráter de Damis e descobrir até que ponto ele foi admitido na verdadeira confiança de Apolônio.

Damis era um entusiasta que amava Apolônio com uma afeição apaixonada.

Ele via em seu mestre quase um ser divino, possuidor de poderes maravilhosos pelos quais continuamente se admirava, mas que nunca podia compreender.

Como Ananda, o discípulo favorito do Buda e seu companheiro constante, Damis avançava lentamente na compreensão da verdadeira natureza da ciência espiritual; ele sempre tinha que permanecer nos pátios exteriores dos templos e comunidades em cujos santuários e confiança íntima Apolônio tinha pleno acesso, enquanto ele frequentemente declara sua ignorância dos planos e propósitos de seu mestre. O fato adicional de que ele se refere às suas anotações como as "migalhas"† dos "festins dos deuses" (i. 19), aqueles festins dos quais ele, na maioria das vezes, só podia aprender em segunda mão o pouco que Apolônio achava conveniente lhe contar, e que ele sem dúvida em grande parte entendeu mal e revestiu com suas próprias imaginações, confirmaria ainda mais essa visão, se alguma confirmação adicional fosse necessária.

Mas, de fato, é muito manifesto em toda parte que Damis estava fora do círculo de iniciação, e isso explica tanto seu ponto de vista amante do maravilhoso quanto sua superficialidade geral.

Outro fato que se destaca proeminentemente na narrativa é sua natureza tímida.

Ele está continuamente com medo por si mesmo ou por seu mestre; e mesmo no final, quando Apolônio é aprisionado por Domiciano, é necessária a remoção fenomenal das algemas diante de seus olhos‡ para assegurar-lhe que Apolônio é uma vítima voluntária.

---

† Ἐκθύματα (migalhas, sobras).
‡ Ver especialmente vii. 13, 14, 15, 22, 31.

Damis ama e se admira; agarra-se a detalhes sem importância e os exagera, enquanto só pode relatar das coisas realmente importantes o que imagina ter ocorrido a partir de algumas insinuações de Apolônio.

À medida que sua narrativa avança, é verdade que ela adquire um tom mais sóbrio; mas o que Damis omite, Filóstrato está sempre pronto a suprir de seu próprio acervo de maravilhas, se a ocasião oferecer.

No entanto, mesmo que com o bisturi da crítica cortássemos cada pedaço de carne desse corpo de tradição e lenda, restaria ainda um esqueleto de fatos que representaria Apolônio e nos daria alguma ideia de sua estatura.

Apolônio foi um dos maiores viajantes conhecidos da antiguidade.

Entre os países e lugares que visitou, os seguintes são os principais registrados por Filóstrato.*

De Nino (i. 19), Apolônio viaja para a Babilônia (i. 21), onde permanece um ano e oito meses (i. 40) e visita cidades vizinhas, como Ecbátana, a capital da Média (i. 39); da Babilônia até a fronteira indiana, nenhum nome

* A lista está cheia de lacunas, de modo que não podemos supor que as anotações de Damis fossem registros completos dos numerosos itinerários; não só isso, mas somos tentados a acreditar que viagens inteiras, das quais Damis não participou, são omitidas.


é mencionado; a Índia foi provavelmente adentrada pelo Passo Khaibar (ii. 6),* pois a primeira cidade mencionada é Taxila (Attock) (ii. 20); e assim eles seguem através dos afluentes do Indo (ii. 43) até o vale do Ganges (iii. 5), e finalmente chegam ao "mosteiro dos sábios" (iii. 10), onde Apolônio passa quatro meses (iii. 50).

Esse mosteiro estava presumivelmente no Nepal; fica nas montanhas, e a "cidade" mais próxima é chamada Paraca.

O caos que Filóstrato fez do relato de Damis, e antes dele as maravilhosas transformações que o próprio Damis operou nos nomes indianos, presumivelmente se mostram nessa palavra.

Paraca é talvez tudo o que Damis pôde fazer de Bharata, o nome geral do vale do Ganges no qual os arianos dominantes estavam estabelecidos.

É também provável que esses sábios fossem budistas, pois habitavam um *rūpa-īś*, um lugar que parecia uma fortaleza ou fortim a Damis.

Tenho pouca dúvida de que Filóstrato não

*  Aqui, de todo modo, eles avistaram as montanhas gigantes, o Imaus (Himavat) ou cordilheira do Himalaia, onde ficava o grande monte Meros (Meru). A mudança do nome do Olimpo hindu para Meros em grego havia, desde a expedição de Alexandre, dado origem ao mito de que Baco nascera da coxa (*meros*) de Zeus — presumivelmente um dos fatos que levaram o Professor Max Müller a estigmatizar toda a mitologia como uma "doença da linguagem".

AS VIAGENS DE APOLÔNIO.

conseguia extrair nada da geografia da Índia a partir dos nomes do diário de Damis; todos lhe eram desconhecidos, de modo que, assim que esgota os poucos nomes gregos que conhecia dos relatos da expedição de Alexandre, ele vagueia pelos "confins da terra" e nada consegue compreender até reencontrar nossos viajantes em sua jornada de retorno, na foz do Indo.

O fato saliente de que Apolônio se dirigia a uma certa comunidade, que era seu objetivo peculiar, impressionou tanto a imaginação de Filóstrato (e talvez de Damis antes dele) que ele a descreveu como sendo o único centro do tipo na Índia.

Apolônio foi à Índia com um propósito e retornou dela com uma missão distinta; * e talvez suas constantes indagações acerca dos "sábios" específicos que procurava tenham levado Damis a imaginar que somente eles eram os "Gimnosofistas", os "filósofos nus" (se quisermos tomar o termo em seu sentido literal) da lenda popular grega, que ignorantemente atribuía a todos os ascetas hindus a peculiaridade mais marcante de um número muito pequeno.

Mas voltemos ao nosso itinerário.

Filóstrato embeleza o relato da viagem do Indo até a foz do

*  Referindo-se a seus instrutores, ele diz: "Sempre me lembro de meus mestres e viajo pelo mundo ensinando o que aprendi com eles" (vi. 18).


Eufrates (iii.

52-58) com os contos de viajantes e nomes de ilhas e cidades que ele colheu da Índica que lhe eram acessíveis, e assim retornamos novamente à Babilônia e à geografia familiar com o seguinte itinerário:

Babilônia, Nino, Antioquia, Selêucia, Chipre; dali para a Jônia (iii. 58), onde passa algum tempo na Ásia Menor, especialmente em Éfeso (iv. 1), Esmirna (iv. 5), Pérgamo (iv. 9) e Troia (iv. 11). De lá, Apolônio cruza para Lesbos (iv. 13) e, subsequentemente, navega para Atenas, onde passa alguns anos na Grécia (iv. 17-33), visitando os templos da Hélade, reformando seus ritos e instruindo os sacerdotes (iv. 24). Em seguida, encontramo-lo em Creta (iv. 34) e, posteriormente, em Roma, na época de Nero (iv. 36-46).

Em 66 d.C., Nero emitiu um decreto proibindo qualquer filósofo de permanecer em Roma, e Apolônio partiu para a Espanha, desembarcando em Gades, a moderna Cádis; parece ter permanecido na Espanha apenas por um curto período (iv. 47); dali cruzou para a África e, assim, por mar, novamente para a Sicília, onde visitou as principais cidades e templos (v. 11-14). De lá, Apolônio retornou à Grécia (v. 18), tendo decorrido quatro anos desde seu desembarque em Atenas vindo de Lesbos (v. 19).*

* Segundo alguns, Apolônio teria agora cerca de sessenta e oito anos de idade.

Mas se ele ainda era jovem (digamos, trinta anos ou por volta disso) quando partiu para a Índia, ele deve

AS VIAGENS DE APOLÔNIO.

Do Pireu, nosso filósofo navega para Quios (v. 21), dali para Rodes, e assim para Alexandria (v. 24). Em Alexandria, passa algum tempo e tem várias entrevistas com o futuro Imperador Vespasiano (v. 27-41), e dali parte em uma longa jornada pelo Nilo até a Etiópia, além das cataratas, onde visita uma interessante comunidade de ascetas chamados, de modo vago, de Gimnosofistas (vi. 1-27).

Ao retornar a Alexandria (vi. 28), foi convocado por Tito, que acabara de se tornar imperador, para encontrá-lo em Tarso (vi. 29-34). Após essa entrevista, parece ter voltado ao Egito, pois Filóstrato fala vagamente de ter passado algum tempo no Baixo Egito e de visitas aos fenícios, cilícios, jônios, aqueus e também à Itália (vi. 35).

Ora, Vespasiano foi imperador de 69 a 79, e Tito, de 79 a 81. Como as entrevistas de Apolônio com Vespasiano ocorreram pouco antes do início do reinado daquele imperador, é razoável concluir que nosso filósofo passou vários anos em sua jornada etíope e que, portanto, o relato de Damis é bastante imperfeito.

Em 81, Domiciano tornou-se imperador, e assim como Apolônio se opusera às loucuras de Nero, também criticou os atos de Domiciano.

Tornou-se, então, objeto de suspeita para o imperador; mas, em vez de manter-se afastado de Roma, decidiu enfrentar o tirano cara a cara.

Cruzando do Egito para a Grécia e embarcando em Corinto, navegou pela Sicília até Putéolos e, dali, até a foz do Tibre, e assim a Roma (vii. 10-16). Ali, Apolônio foi julgado e absolvido (vii. — viii. 10). Navegando novamente de Putéolos, Apolônio retornou à Grécia (viii. 15), onde passou dois anos (viii. 24). Dali, cruzou mais uma vez para a Jônia na época da morte de Domiciano (viii. 25), visitando Esmirna, Éfeso e outros de seus lugares favoritos.

Em seguida, envia Damis, sob algum pretexto, a Roma (viii. 28) e — desaparece; isto é, se for permitido especular, empreendeu ainda outra viagem ao lugar que amava acima de todos, o "lar dos sábios".

Ora, Domiciano foi morto em 96 d.C., e um dos últimos atos registrados de Apolônio é sua visão desse evento no momento em que ocorreu.

Portanto, o julgamento de Apolônio em Roma ocorreu por volta de 93, e temos uma lacuna de doze anos desde seu encontro com Tito em 81, que Filóstrato só pode preencher com algumas histórias vagas e generalidades.

Quanto à sua idade na época de seu misterioso

AS VIAGENS DE APOLÔNIO.

desaparecimento das páginas da história, Filóstrato nos diz que Dâmis nada menciona; mas alguns, acrescenta, dizem que tinha oitenta, outros noventa, e alguns até cem.

A estimativa de oitenta anos parece se encaixar melhor com o restante das indicações cronológicas, mas não há certeza no assunto com os materiais atuais à nossa disposição.

Tal é, por assim dizer, o esboço geográfico da vida de Apolônio, e mesmo o leitor mais descuidado do mero esqueleto das viagens registradas por Filóstrato deve ficar impressionado com a energia indomável do homem e seu poder de resistência.

Voltaremos agora nossa atenção para um ou dois pontos de interesse relacionados aos templos e comunidades que visitou.

SEÇÃO IX.

NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS E NOS RETIROS DA RELIGIÃO.

Visto que a natureza dos negócios de Apolônio com os sacerdotes dos templos e os devotos da vida mística era necessariamente de natureza íntima e secreta, pois naqueles dias era o costume invariável traçar uma linha nítida de demarcação entre o interno e o externo, o iniciado e o profano, não se deve esperar que possamos aprender algo além de meras externalidades da narrativa de Dâmis-Filóstrato; no entanto, mesmo essas indicações externas são de interesse.

O templo de Esculápio em Aegae, onde Apolônio passou os anos mais impressionáveis de sua vida, era um dos inúmeros hospitais da Grécia, onde a arte de curar era praticada em moldes totalmente diferentes dos nossos métodos atuais.

Somos imediatamente introduzidos a uma atmosfera carregada de influências psíquicas, a um centro para onde, durante séculos, os pacientes haviam afluído para "consultar

NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS.

o Deus." Para tanto, era-lhes necessário passar por certas purificações preliminares e seguir certas regras dadas pelos sacerdotes; passavam então a noite no santuário e, durante o sono, recebiam instruções para a sua cura.

Esse método, sem dúvida, só era empregado quando a habilidade do sacerdote se esgotava; em todo caso, os sacerdotes deviam ser profundamente versados na interpretação desses sonhos e em sua lógica.

É também evidente que, como Apolônio amava passar seu tempo no templo, ele deve ter encontrado ali satisfação para suas necessidades espirituais e instrução na ciência interior; embora, sem dúvida, seus próprios poderes inatos logo o tenham levado além de seus instrutores e o tenham marcado como o "favorito do Deus." Os muitos casos registrados em nossos dias de pacientes em transe ou alguma outra condição psíquica prescrevendo para si mesmos ajudarão o estudante a compreender as inúmeras possibilidades de cura que, na Grécia, se resumiam na personificação de Esculápio.

Mais tarde, o chefe dos sábios indianos tem um discurso sobre Esculápio e a arte de curar posto em sua boca (iii. 44), onde toda a medicina é dita depender do diagnóstico psíquico e da presciência (tmavreia).

Finalmente, pode-se notar que era o costume invariável dos pacientes, ao se recuperarem, registrar o fato em uma placa ex-voto no templo, precisamente como se faz hoje nos países católicos romanos.*

Em seu caminho para a Índia, Apolônio viu bastante dos Magos na Babilônia.

Ele costumava visitá-los ao meio-dia e à meia-noite, mas do que se passava Damis nada sabia, pois Apolônio não permitia que o acompanhasse e, em resposta às suas perguntas diretas, apenas respondia: "Eles são sábios, mas não em todas as coisas" (i. 26).

A descrição de um certo salão, no entanto, ao qual Apolônio tinha acesso, parece ser uma versão distorcida do interior do templo.

O teto tinha forma de cúpula, e o forro era coberto de "safira"; nesse céu azul havia modelos dos corpos celestes ("aqueles que eles consideram Deuses") moldados em ouro, como se se movessem no éter.

Além disso, do teto estavam suspensas quatro "lygges" douradas, que os Magos chamam de "Línguas dos Deuses". Eram rodas aladas ou esferas conectadas à ideia de Adrasteia (ou Destino). Seus protótipos são descritos imperfeitamente na Visão de Ezequiel, e os chamados strophali hecatinos ou esferulde usados em práticas mágicas

* Para o estudo mais recente em inglês sobre o assunto de Esculápio, ver The Cult of Asclepios, por Alice Walton, Ph.D., no nº III.

dos Cornell Studies in Classical Philology (Ithaca, N.Y.; 1891).

NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS.

podem ter sido descendentes degenerados dessas "rodas vivas" ou esferas dos elementos vitais.

O assunto é de intenso interesse, mas irremediavelmente incapaz de tratamento em nossa presente era de ceticismo e profunda ignorância do passado.

Os "Deuses" que ensinaram nossa humanidade infantil foram, segundo a tradição oculta, de uma humanidade superior àquela que atualmente evolui em nossa terra.

Eles deram o impulso e, quando os filhos da terra tiveram idade suficiente para se sustentarem por conta própria, retiraram-se. Mas a memória de seus feitos e uma forma corrupta e degenerada dos mistérios que estabeleceram sempre perdurou na memória do mito e da lenda.

Videntes captaram vislumbres obscuros do que ensinaram e de como ensinaram, e a tradição dos Mistérios preservou alguma memória disso em seus símbolos e instrumentos ou máquinas.

As lygges dos Magos são ditas uma relíquia dessa memória.

Com relação aos sábios indianos, é impossível extrair qualquer história consistente do amontoado fantástico do romance Damis-Filóstrato.

Damis parece ter confundido uma mistura de memórias e fragmentos de boatos sem qualquer tentativa de distinguir uma comunidade ou seita de outra, e assim produziu um borrão indistinto que Filóstrato gostaria que considerássemos como um quadro do "monte" e uma descrição Tradução do trecho:


...ção de seus "sábios". As confusas memórias de Damis,* contudo, pouco têm a ver com o mosteiro real e seus habitantes ascéticos, que eram a meta da longa jornada de Apolônio.

O que Apolônio ouviu e viu ali, seguindo seu invariável costume em tais circunstâncias, não contou a ninguém, nem mesmo a Damis, exceto o que poderia ser derivado da seguinte sentença enigmática: "Vi homens que habitavam a terra e, no entanto, não sobre ela, defendidos por todos os lados, embora sem qualquer defesa, e possuindo nada além do que todos possuem." Essas palavras ocorrem em duas passagens (iii. e vi. 11), e em ambas Filóstrato acrescenta que Apolônio as escreveu† e as proferiu enigmaticamente.

O significado desse dito não é difícil de adivinhar.

Eles estavam sobre a terra, mas não eram da terra, pois suas mentes estavam fixas nas coisas superiores.

Eram protegidos por seu inato poder espiritual, do qual temos tantos exemplos na literatura indiana; e, no entanto, possuíam nada além do que todos os homens possuem, se apenas desenvolvessem a parte espiritual de seu ser.

Mas essa explicação não é suficientemente simples para Filóstrato, e assim ele recorre a

* Ele evidentemente escreveu as notas das viagens indianas muito tempo depois da época em que foram feitas.

† Isso mostra que Filóstrato as encontrou em alguma obra ou carta de Apolônio, sendo, portanto, independente do relato de Damis para esse particular.

NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS.

serviço todas as memórias de Damis, ou antes, contos de viajantes, sobre levitação, ilusões mágicas e o resto.

O chefe da comunidade é chamado larchas, um nome totalmente não-indiano.

A violência feita a todos os nomes estrangeiros pelos gregos é notória, e aqui temos de lidar com um exército de copistas ignorantes, bem como com Filóstrato e Damis.

Sugeriria que o nome talvez seja uma corrupção de Arhat.*

O principal fardo da narrativa de Damis insiste no conhecimento psíquico e espiritual dos sábios.

Eles sabem o que ocorre à distância, podem contar o passado e o futuro, e ler os nascimentos passados dos homens.

O mensageiro enviado para encontrar Apolônio carregava o que Damis chama de âncora dourada (iii.

11, 17), e se isso é um fato autêntico, sugeriria um precursor do *dorje* tibetano, o atual símbolo degenerado da "vara de poder", algo como o raio empunhado por Zeus.

Isso também apontaria para uma comunidade budista, embora se deva confessar que outras indicações apontam igualmente com força para costumes bramânicos, como a marca de casta na testa do mensageiro (iii. 7, 11), o porte de cajados (de bambu) (*danda*), o deixar o cabelo crescer longo e o uso de turbantes (iii. 13). Mas, na verdade, todo o relato é confuso demais para permitir qualquer esperança de extrair detalhes históricos.

Da natureza da visita de Apolônio, podemos, no entanto, julgar pela seguinte carta misteriosa aos seus anfitriões (iii. 51):

"Vim até vós por terra e me destes o mar; não, antes, ao compartilhar comigo a vossa sabedoria, destes-me poder para viajar através do céu. Estas coisas trarei de volta à mente dos gregos, e conversarei convosco como se estivésseis presentes, se é que não bebi em vão do cálice de Tântalo."

É evidente dessas frases enigmáticas que o "mar" e o "cálice de Tântalo" são idênticos à "sabedoria" que fora transmitida a Apolônio — a sabedoria que ele deveria trazer de volta mais uma vez à memória dos gregos.

Ele assim declara claramente que retornou da Índia com uma missão distinta e com os meios para realizá-la, pois não apenas bebera do oceano de sabedoria ao aprender o *Brahma-vidya* de seus lábios, mas também aprendera como conversar com eles, embora seu corpo estivesse na Grécia e os deles na Índia.

Mas um significado tão simples — simples ao menos para todo estudante da natureza oculta — estava além do entendimento de Damis ou da compreensão de Filóstrato.

E é sem dúvida a menção do "cálice de Tântalo" * nesta carta que sugeriu o episódio do cálice inesgotável do amor em iii. 32, e sua conexão com as fontes míticas de Baco.

Damis o utiliza para "explicar" a última frase do dito de Apolônio sobre os sábios, a saber, que eles eram "possuidores de nada além do que todos possuem", o que, no entanto, aparece em outra parte sob forma modificada, como "não possuindo nada, têm as posses de todos os homens" (iii. 15).

Ao retornar à Grécia, um dos primeiros santuários que Apolônio visitou foi o de Afrodite em Pafos, em Chipre (iii. 58). A maior peculiaridade externa do culto pafiano de Vênus era a representação da deusa por um misterioso símbolo de pedra. Parece ter tido o tamanho de um ser humano, mas com a forma de uma pinha, apenas, naturalmente, com superfície lisa. Pafos era aparentemente o mais antigo santuário dedicado a Vênus na Grécia. Seus mistérios eram muito antigos, mas não indígenas; foram trazidos do continente, do que posteriormente foi a Cilícia, em tempos de remota antiguidade.

* Tântalo é fabulado por ter roubado a taça de néctar dos deuses; este era o amrita, o oceano de imortalidade e sabedoria, dos indianos.

† As palavras ouSev /ceKT/xeVovs 17 ra TTOLVTW, que Filóstrato cita duas vezes nesta forma, certamente não podem ser alteradas para /xSev Kc/cTTy/xevov? TO, Travrwv *X€LV sem fazer violência injustificável ao seu significado.


O culto ou consulta à Deusa era feito por meio de orações e da "chama pura do fogo", e o templo era um grande centro de adivinhação.* Apolônio passou algum tempo ali e instruiu os sacerdotes longamente a respeito de seus ritos sagrados.

Na Ásia Menor, ele ficou especialmente satisfeito com o templo de Esculápio em Pérgamo; curou muitos dos pacientes ali e deu instruções sobre os métodos adequados a adotar para obter resultados confiáveis por meio dos sonhos prescritivos.

Em Troia, somos informados, Apolônio passou uma noite sozinho no túmulo de Aquiles, antigamente um dos locais de maior santidade popular na Grécia (iv. 11). Por que o fez não transparece, pois a fantástica conversa com a sombra do herói relatada por Filóstrato (iv. 16) parece ser desprovida de qualquer elemento de verossimilhança.

Como, porém, Apolônio fez questão de visitar a Tessália pouco depois, expressamente para exortar os tessálios a renovarem os antigos ritos costumeiros ao herói (iv. 13), podemos supor que isso fez parte de seu grande esforço para restaurar e purificar as antigas instituições da Hélade, de modo que, liberados os canais costumeiros, a vida pudesse fluir mais saudavelmente no corpo nacional.

* Ver Tácito, Histórias, ii. 3.

NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS.

Dâmis também queria que Aquiles tivesse dito a Apolônio onde ele encontraria a estátua do herói Palamedes na costa da Eólia.

Apolônio, portanto, restaurou a estátua, e Filóstrato nos conta que a vira com seus próprios olhos no local (iv. 13).

Ora, isso seria um assunto de muito pouco interesse, não fosse o fato de que muito se faz de Palamedes em outras partes da narrativa de Filóstrato.

O que tudo isso significa é difícil de dizer com um Dâmis e um Filóstrato como intérpretes entre nós e o silencioso e enigmático Apolônio.

Palamedes foi um dos heróis diante de Troia, que se dizia ter inventado as letras, ou ter completado o alfabeto de Cadmo.*

Ora, a partir de dois ditos obscuros (iv. 13, 33), colhemos que nosso filósofo considerava Palamedes como o herói-filósofo do período troiano, embora Homero quase não diga uma palavra sobre ele.

Foi essa, então, a razão pela qual Apolônio estava tão ansioso para restaurar sua estátua? Não inteiramente; parece ter havido uma razão mais direta.

Dâmis queria que Apolônio tivesse encontrado Palamedes na Índia; que ele estivesse no mosteiro; que Iarcas um dia apontara um jovem asceta que podia "escrever sem nunca ter aprendido letras"; e que * Berwick, Vida de Apolônio, p. 200 n.


esse jovem não fora outro senão Palamedes em um de seus nascimentos anteriores.

Sem dúvida, o cético dirá: "Claro! Pitágoras foi uma reencarnação do herói Euforbo, que lutou em Troia, segundo a superstição popular; portanto, naturalmente, o jovem indiano era a reencarnação do herói Palamedes! Uma lenda simplesmente gerou a outra." Mas, por esse princípio, para sermos coerentes, deveríamos esperar encontrar que fosse o próprio Apolônio, e não um asceta hindu desconhecido, quem tivesse sido outrora Palamedes.

Em todo caso, Apolônio restaurou os ritos a Aquiles e ergueu uma capela na qual colocou a estátua negligenciada de Palamedes.* Os heróis do período troiano, então, ao que parece, ainda tinham alguma conexão com a Grécia, segundo a ciência do mundo invisível na qual Apolônio foi iniciado.

E se o cético protestante não puder fazer nada disso, ao menos o leitor católico romano pode ser induzido a suspender seu julgamento, mudando "herói" para "santo".

Será possível que a atenção que Apolônio dispensou aos túmulos e monumentos funerários dos grandes mortos da Grécia tenha sido inspirada pelo círculo de ideias que levou à construção das inúmeras dagobas e stupas nas terras budistas, originalmente sobre as relíquias do Buda, e à subsequente preservação de relíquias de arhats e grandes mestres?

Em Lesbos, Apolônio visitou o antigo templo dos mistérios órficos, que nos primeiros anos fora um grande centro de profecia e adivinhação.

Aqui também ele teve o privilégio de entrar no santuário interno ou ádito (iv. 14).

O tianeano chegou a Atenas na época dos Mistérios de Elêusis e, apesar do festival e dos ritos, não apenas o povo, mas também os candidatos acorreram para encontrá-lo, negligenciando seus deveres religiosos.

Apolônio os repreendeu e ele próprio participou dos ritos preliminares necessários e apresentou-se para a iniciação.

* Ele também construiu um recinto ao redor do túmulo de Leônidas nas Termópilas (iv. 23).

NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS.

Poderá, talvez, surpreender o leitor ouvir que Apolônio, já iniciado em privilégios superiores aos que Elêusis podia oferecer, se apresentasse para a iniciação.

Mas a razão não está longe de ser encontrada; os Eleusínia constituíam uma das organizações intermediárias entre os cultos populares e os verdadeiros círculos internos de instrução.

Eles preservavam uma das tradições do caminho interior, ainda que seus oficiais da época tivessem esquecido o que seus predecessores outrora conheceram.

Para restaurar esses antigos ritos à sua pureza, ou para utilizá-los para seu objetivo original, era necessário adentrar os recintos da instituição; nada poderia ser efetuado de fora.


A coisa em si era boa, e Apolônio desejava apoiar a antiga instituição dando o exemplo público de buscar nela a iniciação; não que tivesse algo a ganhar pessoalmente.

Mas fosse porque o hierofante daquele tempo era apenas ignorante, ou porque tivesse ciúmes da grande influência de Apolônio, recusou-se a admitir nosso filósofo, sob o fundamento de que ele era um feiticeiro (70*79), e que ninguém poderia ser iniciado quem estivesse manchado pelo intercâmbio com entidades malignas (Sai/movta). A essa acusação Apolônio respondeu com ironia velada: "Omitistes a acusação mais grave que poderíeis ter feito contra mim: a saber, que, embora eu realmente saiba mais sobre o rito místico do que seu hierofante, vim aqui fingindo desejar a iniciação de homens que sabem mais do que eu." Essa acusação teria sido verdadeira; ele havia feito uma pretensão.

Consternado com essas palavras, assustado com a indignação do povo despertada pelo insulto oferecido ao seu distinto hóspede, e intimidado pela presença de um conhecimento que ele já não podia negar, o hierofante suplicou a nosso filósofo que aceitasse a iniciação. Mas Apolônio recusou.

NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS.

"Eu serei iniciado mais tarde", respondeu ele; "ele me iniciará." Diz-se que isso se referia ao hierofante sucessor, que presidiu quando Apolônio foi iniciado quatro anos depois (iv. 18; v. 19).

Estando em Atenas, Apolônio falou veementemente contra a efeminação das Bacanais e as barbaridades dos combates de gladiadores (iv. 21, 22).

Os templos, mencionados por Filóstrato, que Apolônio visitou na Grécia, têm todos a peculiaridade de serem muito antigos; por exemplo, Dodona, Delfos, o antigo santuário de Apolo em Abas, na Fócida, as "cavernas" de Anfiarao * e Trofônio, e o templo das Musas no Hélicon.

Quando ele adentrava os ádyta desses templos com o propósito de "restaurar" os ritos, era acompanhado apenas pelos sacerdotes e por certos de seus discípulos imediatos (gnorimoi). Isso sugere uma extensão ao significado da palavra "restaurar" ou "reformar", e quando lemos em outra parte sobre os muitos locais consagrados por Apolônio, não podemos deixar de pensar que parte de seu trabalho era a reconsagração e, portanto, a purificação psíquica, de muitos desses antigos centros.

Seu principal trabalho externo, no entanto, era o

* Um grande centro de adivinhação por meio de sonhos (ver ii. 37).


fornecimento de instrução e, como Filóstrato retoricamente o expressa, "taças de suas palavras foram erguidas em toda parte para que os sedentos bebessem" (iv. 24).

Mas nosso filósofo não apenas restaurou os antigos ritos da religião; ele também dedicou muita atenção às antigas políticas e instituições.

Assim, encontramo-lo exortando com sucesso os espartanos a retornarem ao seu antigo modo de vida, aos seus exercícios atléticos, à vida frugal e à disciplina da antiga tradição dórica (iv. 27, 31-34); além disso, ele elogiou especialmente a instituição dos Jogos Olímpicos, cujo alto padrão ainda era mantido (iv. 29), enquanto relembrava o antigo Conselho Anfictiônico de seu dever (iv. 23) e corrigia os abusos da assembleia paniônia (iv. 5).

Na primavera de 66 d.C., ele deixou a Grécia para Creta, onde parece ter dedicado a maior parte do seu tempo aos santuários do Monte Ida e ao templo de Esculápio em Lebene ("pois assim como toda a Ásia visita Pérgamo, toda Creta visita Lebene"); mas, curiosamente, recusou-se a visitar o famoso Labirinto de Cnossos, cujas ruínas acabaram de ser descobertas para uma geração cética, muito provavelmente (se é lícito especular) porque fora outrora um centro de sacrifício humano e, portanto, pertencia a um dos antigos cultos da mão esquerda.

NOS SANTUÁRIOS DOS TEMPLOS.

Em Roma, Apolônio continuou seu trabalho de reformar os templos, e isso com a plena sanção do Pontífice Máximo Telesino, um dos cônsules do ano 66 d.C., que também era filósofo e profundo estudioso da religião (iv. 40). Mas sua permanência na cidade imperial foi rapidamente interrompida, pois em outubro Nero coroou sua perseguição aos filósofos publicando um decreto de banimento contra eles de Roma, e tanto Telesino (vii. 11) quanto Apolônio tiveram de deixar a Itália.

Em seguida, encontramo-lo na Espanha, estabelecendo seu quartel-general no templo de Hércules em Cádis.

Em seu retorno à Grécia, passando pela África e Sicília (onde passou algum tempo e visitou o Etna), passou o inverno (? de 67 d.C.) em Elêusis, vivendo no templo, e na primavera do ano seguinte navegou para Alexandria, passando algum tempo no caminho em Rodes.

A cidade da filosofia e do ecletismo por excelência recebeu-o de braços abertos como um velho amigo.

Mas reformar os cultos públicos do Egito era uma tarefa muito mais difícil do que qualquer outra que ele havia tentado anteriormente.

Sua presença no templo (? o templo de Serápis) impunha respeito universal; tudo ao seu redor e cada palavra que proferia pareciam respirar uma atmosfera de sabedoria e de "algo divino". O sumo sacerdote do templo observava com orgulhoso desdém "Quem é sábio o bastante", perguntou ele zombeteiramente, "para reformar a religião dos egípcios?" — apenas para ser recebido com a confiante réplica de Apolônio: "Qualquer sábio que venha dos indianos." Aqui, como em outros lugares, Apolônio opôs-se ao sacrifício de sangue e tentou substituí-lo, como havia tentado em outras partes, pela oferenda de incenso modelado na forma da vítima (v. 25). Muitos abusos ele tentou reformar nos costumes dos alexandrinos, mas nenhum o preocupou mais severamente do que o seu frenesi pelas corridas de cavalos, que frequentemente levava a derramamento de sangue (v. 26).


Apolônio parece ter passado a maior parte dos vinte anos restantes de sua vida no Egito, mas do que fez nos santuários secretos daquela terra de mistério nada podemos aprender com Filóstrato, exceto que, na longa jornada até a Etiópia, subindo o Nilo, nenhuma cidade, templo ou comunidade deixou de ser visitada, e em toda parte houve uma troca de conselhos e instruções sobre coisas sagradas (v. 43).

SEÇÃO X. OS GIMNOSOFISTAS DO ALTO EGITO.

Chegamos agora à visita de Apolônio aos "Gimnosofistas" na "Etiópia", que, embora seja a meta artística e literária da jornada de Apolônio no Egito, conforme elaborada por Filóstrato, é apenas um incidente isolado na história real da vida não registrada de nosso misterioso filósofo naquela terra antiga.

Se Filóstrato tivesse dedicado um ou dois capítulos à natureza das práticas, disciplina e doutrinas das inúmeras comunidades ascéticas e místicas que entremeavam o Egito e as terras adjacentes naqueles dias, teria conquistado a gratidão ilimitada dos estudiosos das origens.

Mas de tudo isso ele não diz uma palavra; e, no entanto, quer que acreditemos que as reminiscências de Damis fossem uma série ordenada de notas sobre o que realmente aconteceu.

Mas em todas as coisas é muito evidente que Damis era mais um companheiro de viagem do que um discípulo iniciado.

Quem eram, então, esses misteriosos "Gimnosofistas"?

"Filósofos nus", como são geralmente chamados, e de onde provém seu nome? Damis os chama simplesmente de "Nus" (γυμνοί), e é muito claro que o termo não deve ser entendido como meramente fisicamente nu; de fato, nem aos indianos nem a esses ascetas do extremo Egito pode o termo ser aplicado com propriedade em seu significado puramente físico, como é evidente pelas descrições de Damis e Filóstrato.

Uma frase casual que cai dos lábios de um desses ascetas, ao narrar a história de sua vida, nos oferece uma pista para o verdadeiro significado do termo.

"Aos quatorze anos", ele conta a Apolônio, "renunciei ao meu patrimônio em favor daqueles que desejavam tais coisas, e nu busquei o Nu" (vi. 16)*

Esta é exatamente a mesma dicção que Filo usa sobre as comunidades dos Terapeutas, que ele declara serem muito numerosas em todas as províncias do Egito e espalhadas por todas as terras.

Não devemos, contudo, supor que essas comunidades fossem todas da mesma natureza.

É verdade que Filo tenta fazer parecer que a mais piedosa e a principal de todas elas era a sua comunidade particular

* A palavra γυμνός (nu), contudo, geralmente significa levemente vestido, como, por exemplo, quando se diz que um homem ara "nu", isto é, com apenas uma vestimenta, e isso é evidente pela comparação feita entre o traje dos Gimnosofistas e o das pessoas no clima quente de Atenas (vi. 6).

OS    GIMNOSOFISTAS    DO    ALTO   EGITO.

na margem sul do Lago Moeris, que era fortemente semítica, se não ortodoxamente judaica; e para Filo, qualquer comunidade com uma atmosfera judaica naturalmente teria de ser a melhor.

A peculiaridade e o principal interesse de nossa comunidade, que ficava na outra extremidade da terra, acima das cataratas, era que ela tivera alguma remota conexão com a Índia.

A comunidade é chamada de *phrontisterion*, no sentido de um lugar para meditação, termo usado por escritores eclesiásticos para um mosteiro, mas mais conhecido dos estudantes clássicos pelo uso humorístico que dele fez Aristófanes, que em *As Nuvens* chama a escola de Sócrates de *phrontisterion* ou "loja de pensamento". A coleção de mosteiros (*hiera*), presumivelmente cavernas, santuários ou celas,* estava situada em uma colina ou terreno elevado não muito longe do Nilo.

Eles estavam todos separados uns dos outros, espalhados pela colina, e engenhosamente dispostos.

Havia quase nenhuma árvore no lugar, com exceção de um único grupo de palmeiras, sob cuja sombra realizavam suas reuniões gerais (vi. 6).

É difícil extrair dos discursos formais, postos na boca do chefe da comunidade e de Apolônio (vi. 10-13, 18-22), quaisquer detalhes precisos sobre o modo de vida desses

* Pois não tinham cabanas nem casas, mas viviam ao ar livre.


ascetas, além das indicações gerais de uma existência de grande labuta e privação física, que consideravam o único meio de alcançar a sabedoria.

Qual era a natureza de seu culto, se é que tinham um, não nos é dito, exceto que ao meio-dia os Nus se retiravam para seus mosteiros (vi. 14).

Toda a tendência dos argumentos de Apolônio, no entanto, é lembrar a comunidade de sua origem oriental e sua antiga conexão com a Índia, que parece ter esquecido.

As comunidades desse tipo particular no sul do Egito e no norte da Etiópia datavam presumivelmente de alguns séculos, e algumas delas podem ter sido remotamente budistas, pois um dos membros mais jovens de nossa comunidade que a deixou para seguir Apolônio diz que veio se juntar a ela pelo relato entusiasmado da sabedoria dos indianos trazido por seu pai, que havia sido capitão de um navio que comerciava com o Oriente.

Foi seu pai quem lhe disse que esses "etíopes" eram da Índia, e assim ele se juntou a eles em vez de fazer a longa e perigosa viagem até o próprio Indo (vi. 16).

Se há alguma verdade nessa história, segue-se que os fundadores desse modo de vida teriam sido ascetas indianos e, se assim for, devem ter pertencido à única forma proselitista da religião indiana, a saber, a budista.

Após o impulso ter sido dado, as comunidades, que presumivelmente eram recrutadas de gerações de egípcios, árabes e etíopes, provavelmente foram deixadas inteiramente por conta própria e, assim, com o tempo, esqueceram sua origem e talvez até sua regra original.

Tais especulações são permitidas, devido à repetida afirmação da conexão original entre esses Gimnosofistas e a Índia.

Todo o peso da história é que eles eram indianos que haviam esquecido sua origem e decaído da sabedoria.

O último incidente que Filóstrato registra a respeito de Apolônio entre os santuários e templos é uma visita ao famoso e muito antigo oráculo de Trofônio, perto de Lebadeia, na Beócia.

Diz-se que Apolônio passou sete dias sozinho nessa misteriosa "caverna" e retornou com um livro cheio de perguntas e respostas sobre o assunto da "filosofia" (viii. 19). Esse livro ainda estava, no tempo de Filóstrato, no palácio de Adriano em Âncio, juntamente com uma série de cartas de Apolônio, e muitas pessoas costumavam visitar Âncio com o propósito especial de vê-lo (viii. 19, 20).

No fardo de palha de lengalenga lendária solenemente registrado por Filóstrato a respeito da caverna de Trofônio, talvez possa ser encontrada uma pequena agulha de verdade.

A "caverna" parece ter sido um templo ou santuário muito antigo, escavado no coração de uma colina, ao qual conduziam uma série de passagens subterrâneas de considerável extensão.


Provavelmente fora, em tempos antigos, um dos mais sagrados centros do arcaico culto da Hélade, talvez mesmo uma relíquia daquela Grécia de milhares de anos A.C., cuja única tradição, como nos diz Platão, foi obtida por Sólon dos sacerdotes de Sais. Ou pode ter sido um santuário subterrâneo da mesma natureza da famosa caverna Dictéia, em Creta, que apenas no ano passado foi trazida de volta à luz pelos incansáveis trabalhos dos Srs. Evans e Hogarth.

Como no caso das viagens de Apolônio, assim também no que diz respeito aos templos e comunidades que visitou, Filóstrato é um cicerone bastante decepcionante.

Mas talvez não se deva culpá-lo por isso, pois a parte mais importante e mais interessante do trabalho de Apolônio era de natureza tão íntima, levada a cabo como foi entre associações de sigilo tão zelosamente guardado, que ninguém fora de suas fileiras poderia saber algo a respeito, e aqueles que compartilhavam de sua iniciação nada diriam.

É, portanto, somente quando Apolônio se adianta para realizar algum ato público que podemos obter algum traço histórico preciso dele; em todos os outros casos, ele passa para o santuário de um templo ou adentra a privacidade de uma comunidade e se perde de vista.

Pode talvez nos surpreender que Apolônio,

OS GIMNOSOFISTAS DO ALTO EGITO.

após sacrificar sua fortuna privada, pudesse, não obstante, empreender viagens tão longas e dispendiosas, mas parece que ele era ocasionalmente suprido com os fundos necessários dos tesouros dos templos (cf. viii. 17), e que em toda parte lhe era livremente oferecida a hospitalidade do templo ou da comunidade no lugar onde porventura estivesse hospedado.

Em conclusão da presente parte de nosso assunto, podemos mencionar o bom serviço prestado por Apolônio ao afastar certos charlatães caldeus e egípcios que estavam tirando proveito dos temores das cidades nas margens esquerdas do Helesponto.

Essas cidades haviam sofrido severamente com os abalos de terremotos e, em seu pânico, colocaram grandes somas de dinheiro nas mãos desses aventureiros (que "traficavam com as desgraças alheias"), a fim de que pudessem realizar ritos propiciatórios (vi. 41). Esse ato de receber dinheiro em troca de instrução na ciência sagrada ou pela realização de ritos sagrados era o mais detestável dos crimes para todos os verdadeiros filósofos.

SEÇÃO XL

APOLÔNIO E OS GOVERNANTES DO IMPÉRIO.

Mas não apenas Apolônio vivificou e reconsagrou os antigos centros de religião por alguma razão insondável, e fez o que pôde para auxiliar a vida religiosa da época em suas múltiplas fases, como também tomou parte decidida, embora indireta, em influenciar os destinos do Império por meio das pessoas de seus supremos governantes.

Essa influência, no entanto, era invariavelmente de natureza moral e não política.

Era exercida por meio de conversa e instrução filosóficas, por palavra falada ou por carta.

Assim como Apolônio, em suas viagens, conversava sobre filosofia e discorria sobre a vida do homem sábio e os deveres do governante sábio, com reis,* governantes e magistrados, da mesma forma ele se esforçava para aconselhar para o bem aqueles dos imperadores que o ouvissem.

* Ele passou, segundo nos é dito, nada menos que um ano e oito meses com Vardan, Rei da Babilônia, e foi o hóspede honrado do Rajá indiano "Fraotes".

APOLÔNIO E OS GOVERNANTES DO IMPÉRIO.

Vespasiano, Tito e Nerva foram todos, antes de sua elevação à púrpura, amigos e admiradores de Apolônio, enquanto Nero e Domiciano viam o filósofo com apreensão.

Durante a curta estada de Apolônio em Roma, no ano 66 d.C., embora nunca deixasse escapar a menor palavra que pudesse ser interpretada pelos numerosos delatores como uma declaração traiçoeira, ele foi, no entanto, levado perante Tigelino, o infame favorito de Nero, e submetido a um severo interrogatório.

Aparentemente, até essa época, Apolônio, trabalhando para o futuro, havia confinado sua atenção inteiramente à reforma da religião e à restauração das antigas instituições das nações, mas a conduta tirânica de Nero, que não dava paz nem mesmo aos filósofos mais irrepreensíveis, por fim abriu seus olhos para um mal mais imediato, que parecia nada menos que a abolição da liberdade de consciência por uma tirania irresponsável.

A partir desse momento, portanto, encontramo-lo profundamente interessado nas pessoas dos imperadores sucessivos.

Na verdade, Damis, embora confesse sua total ignorância quanto ao propósito da viagem de Apolônio à Espanha após sua expulsão de Roma, quereria que fosse para auxiliar a iminente revolta contra Nero.

Ele conjectura isso a partir de uma entrevista secreta de três dias que Apolônio teve com o Governador da Província da Bética, que veio a Cádis especialmente para vê-lo, e declara que as últimas palavras do visitante de Apolônio foram: "Adeus, e lembra-te de Vindex" (v. 10).


É verdade que quase imediatamente depois irrompeu a revolta de Vindex, o Governador da Gália, mas toda a vida e o caráter de Apolônio se opõem a qualquer ideia de intriga política; ao contrário, ele enfrentou corajosamente a tirania e a injustiça face a face.

Ele se opunha à ideia de Eufrates, um filósofo de índole bastante diferente, que teria posto fim à monarquia e restaurado a república (v. 33); ele acreditava que o governo por um monarca era o melhor para o Império, mas desejava acima de todas as coisas ver o "rebanho da humanidade" conduzido por um "pastor sábio e fiel" (v. 35).

De modo que, embora Apolônio tenha apoiado Vespasiano enquanto este dignamente tentou seguir esse ideal, ele imediatamente o repreendeu em sua face quando o privou as cidades gregas de seus privilégios.

"Você escravizou a Grécia", escreveu ele.

"  Vós  reduzistes  um  povo  livre  à  escravidão "  (v.  41).  No  entanto,  apesar  dessa  repreensão,  Vespasiano,  em  sua  última  carta  a  seu  filho  Tito,  confessa  que  eles  são  o  que  são  unicamente  graças  aos  bons  conselhos  de  Apolônio  (v.  30).

APOLÔNIO  E  OS  GOVERNANTES  DO  IMPÉRIO.

Igualmente,  ele  viajou  a  Roma  para  encontrar-se  face  a  face  com  Domiciano,  e  embora  tenha  sido  posto  em  julgamento  e  todos  os  esforços  tenham  sido  feitos  para  prová-lo  culpado  de  conspiração  traiçoeira  com  Nerva,  ele  não  pôde  ser  condenado  por  nada  de  natureza  política.

Nerva  era  um  homem  bom,  disse  ele  ao  imperador,  e  nenhum  traidor.

Não  que  Domiciano  tivesse  realmente  qualquer  suspeita  de  que  Apolônio  estivesse  pessoalmente  conspirando  contra  ele;  ele  o  lançou  na  prisão  unicamente  na  esperança  de  que  pudesse  induzir  o  filósofo  a  revelar  as  confidências  de  Nerva  e  de  outros  homens  proeminentes  que  eram  objetos  de  suspeita  para  ele,  e  que  ele  imaginava  terem  consultado  Apolônio  sobre  suas  chances  de  sucesso.

O  assunto  de  Apolônio  não  era  com  a  política,  mas  com  os  "  príncipes  que  lhe  pediam  conselhos  sobre  o  tema  da  virtude "  (vi.  43).

SEÇÃO  XII.

APOLÔNIO,  O  PROFETA  E  OPERADOR  DE  MARAVILHAS.

VOLTAREMOS  agora  nossa  atenção,  por  um  breve  espaço,  para  esse  lado  da  vida  de  Apolônio  que  o  tornou  objeto  de  invencível  preconceito.

Apolônio  não  era  apenas  um  filósofo,  no  sentido  de  ser  um  especulador  teórico  ou  de  ser  o  seguidor  de  um  modo  de  vida  ordenado,  disciplinado  na  prática  da  resignação;  ele  era  também  um  filósofo  no  significado  original  pitagórico  do  termo — um  conhecedor  dos  segredos  da  Natureza,  que  assim  podia  falar  como  quem  tem  autoridade.

Ele  conhecia  as  coisas  ocultas  da  Natureza  por  visão  e  não  por  ouvir  dizer;  para  ele,  o  caminho  da  filosofia  era  uma  vida  pela  qual  o  próprio  homem  se  tornava  um  instrumento  de  conhecimento.

Religião,  para  Apolônio,  não  era  apenas  uma  fé;  era  uma  ciência.

Para  ele,  as  aparências  das  coisas  eram  apenas  manifestações  em  constante  mudança;  cultos  e  ritos,  religiões  e  fés,  eram  todos  um  para  ele,  desde  que  o  espírito  correto  estivesse  por  trás  deles.

O  Tianeano

APOLÔNIO,  PROFETA  E  OPERADOR  DE  MARAVILHAS.

Ill

não conhecia diferenças de raça ou credo; tais limitações estreitas não eram para o filósofo.

Acima de todos os outros, teria rido ao ouvir a palavra "milagre" aplicada aos seus feitos.

"Milagre", em seu sentido teológico cristão, era um termo desconhecido na antiguidade, e é um vestígio de superstição hoje.

Pois, embora muitos acreditem que é possível, por meio da alma, efetuar uma multidão de coisas além das possibilidades de uma ciência confinada inteiramente à investigação das forças físicas, somente os impensados acreditam que possa haver qualquer interferência no funcionamento das leis que a Divindade imprimiu sobre a Natureza — o credo dos milagristas.

A maioria dos feitos maravilhosos registrados de Apolônio são casos de profecia ou presságio; de ver à distância e ver o passado; de ver ou ouvir em visão; de curar os enfermos ou tratar casos de obsessão ou possessão.

Já quando jovem, no templo de Egeia, Apolônio deu sinais da posse dos rudimentos dessa percepção psíquica; não apenas percebeu corretamente a natureza do passado sombrio de um suplicante rico, mas indigno, que desejava a restauração de sua visão, mas também previu, embora de forma pouco clara, o fim maligno daquele que atentou contra sua inocência (i. 12).

Ao encontrar Damis, seu futuro fiel companheiro, este ofereceu seus serviços para a longa jornada à Índia, alegando que conhecia as línguas de vários dos países pelos quais teriam de passar.


"Mas eu as compreendo todas, embora não tenha aprendido nenhuma delas", respondeu Apolônio, em seu habitual estilo enigmático, e acrescentou: "Não te admires de que eu conheça todas as línguas dos homens, pois conheço até o que eles nunca dizem" (i. 19). E com isso queria dizer simplesmente que podia ler os pensamentos dos homens, não que falasse todas as línguas.

Mas Damis e Filóstrato não conseguem compreender um fato tão simples da experiência psíquica; eles insistem em que ele conhecia não apenas a língua de todos os homens, mas também a das aves e dos animais (i. 20).

Em sua conversa com o monarca babilônio Vardanes, Apolônio reivindica claramente a presciência.

Ele diz que é um médico da alma e pode libertar o rei das doenças da mente, não apenas porque sabe o que deve ser feito, ou seja, a disciplina adequada ensinada nas escolas pitagóricas e similares, mas também porque pré-conhece a natureza do rei (i. 32). De fato, somos informados de que o tema do pré-conhecimento (Trpoyvuxrew), ciência (crotyia) da qual Apolônio era um profundo estudante, foi um dos principais tópicos discutidos por nosso filósofo e seus anfitriões indianos (iii. 42).

Na verdade, como Apolônio conta a seu amigo filosófico

APOLÔNIO, PROFETA E FAZEDOR DE MARAVILHAS.

e estudioso, o cônsul romano Telesino, para ele a sabedoria era uma espécie de divinização ou tornar divino de toda a natureza, uma espécie de estado perpétuo de inspiração (Oetaa-fjLo?) (iv. 40). E assim somos informados de que Apolônio era avisado de todas as coisas dessa natureza pela energia de sua natureza demoníaca (Sat/uLovlw) (vii. 10). Ora, para o estudante das escolas pitagórica e platônica, o "daimon" de um homem era o que pode ser chamado de eu superior, o lado espiritual da alma, distinguido do puramente humano.

É a parte melhor do homem, e quando sua consciência física está em uníssono com este "morador no céu", ele tem (de acordo com a mais elevada filosofia mística da Grécia antiga) ainda na terra os poderes daqueles seres intermediários incorpóreos entre deuses e homens chamados "daimons"; um estágio ainda mais alto, o homem vivo torna-se uníssono com sua alma divina, ele se torna um deus na terra; e ainda um estágio mais alto, ele se torna uno com o Bem e assim se torna Deus.

Daí encontramos Apolônio rejeitando indignadamente a acusação de magia, ignorantemente trazida contra ele, uma arte que alcançava seus resultados por meio de pactos com aquelas entidades inferiores com as quais o reino mais externo da Natureza interior fervilha.

Nosso filósofo repudiou igualmente

a ideia de ser um adivinho ou vidente.


Com tais artes ele não teria nada a ver; se alguma vez proferisse algo que cheirasse a preconhecimento, soubessem que não era por adivinhação no sentido vulgar, mas devido à "sabedoria que Deus revela aos sábios" (iv. 44).

Os feitos maravilhosos mais numerosos atribuídos a Apolônio são precisamente exemplos de tal preconhecimento ou profecia. Deve-se confessar que os ditos registrados são frequentemente obscuros e enigmáticos, mas este é o caso usual com tal profecia; pois os eventos futuros são mais frequentemente vistos em representações simbólicas, cujo significado não é claro até depois do evento, ou ouvidos em sentenças igualmente enigmáticas.

Por vezes, contudo, temos exemplos de preconhecimento muito preciso, como a recusa de Apolônio de embarcar em um navio que naufragou na viagem (v. 18).

Os exemplos de ver eventos presentes à distância, porém — como o incêndio de um templo em Roma, que Apolônio viu enquanto estava em Alexandria — são claros o suficiente.

Na verdade, se as pessoas nada mais sabem do tianeu, ao menos ouviram como ele viu em Éfeso o assassinato de Domiciano em Roma no exato momento de sua ocorrência.

* Ver i. 22 (cf. 40), 34; iv. 4, 6, 18 (cf. v. 19), 24, 43; v. 7, 11, 13, 30, 37; vi. 32; viii. 26.

APOLÔNIO, PROFETA E FAZEDOR DE MARAVILHAS.

Era meio-dia, para citar o relato gráfico de Filóstrato, e Apolônio estava em um dos pequenos parques ou bosques nos subúrbios, ocupado em proferir um discurso sobre algum tópico absorvente de filosofia.

"No início, ele baixou a voz como se estivesse com alguma apreensão; contudo, continuou sua exposição, mas hesitante, e com muito menos força do que de costume, como um homem que tivesse algum outro assunto em mente além daquele sobre o qual fala; finalmente, cessou de falar por completo, como se não pudesse encontrar suas palavras.

Então, fitando fixamente o chão, avançou três ou quatro passos, gritando: 'Fere o tirano; fere!' E isso, não como um homem que vê uma imagem em um espelho, mas como alguém com a cena real diante dos olhos, como se ele próprio estivesse participando dela."

Voltando-se para sua plateia atônita, contou-lhes o que vira.

Mas, embora esperassem que fosse verdade, recusaram-se a acreditar e pensaram que Apolônio havia perdido o juízo.

Mas o filósofo respondeu gentilmente: "Vocês, por sua vez, estão certos em adiar suas alegrias até que a notícia lhes seja trazida da maneira usual; quanto a mim, vou agradecer aos Deuses pelo que eu mesmo vi" (viii. 26).

Não é de admirar, então, se lemos não apenas uma série de sonhos simbólicos, mas também sua interpretação adequada, um dos ramos mais importantes da disciplina esotérica da escola.

(Veja especialmente i. 23 e iv. 34.) Tampouco nos surpreende saber que Apolônio, confiando inteiramente em seu conhecimento interior, foi fundamental para obter o indulto de um homem inocente em Alexandria, que estava prestes a ser executado com um grupo de criminosos (v. 24). De fato, ele parece ter conhecido o passado secreto de muitos com quem teve contato (vi. 3, 5). A posse de tais poderes pode exercer pouca pressão sobre a crença de uma geração como a nossa, para a qual tais fatos da ciência psíquica estão se tornando cada dia mais familiares.

Tampouco devemos nos admirar com exemplos de cura de doenças por processos mesméricos, ou mesmo com a chamada "expulsão de espíritos malignos", se dermos crédito à narrativa evangélica e estivermos familiarizados com a história geral dos tempos em que tal cura de possessão e obsessão era algo comum.

Isso, porém, não nos condena a endossar as descrições fantásticas de tais acontecimentos em que Filóstrato se compraz.

Se é crível que Apolônio tenha tido sucesso em lidar com casos mentais obscuros — casos de obsessão e possessão — dos quais nossos hospitais e asilos estão cheios hoje, e que estão em sua maioria além da habilidade da ciência oficial devido à sua ignorância dos agentes reais em ação, é igualmente evidente

APOLÔNIO, PROFETA E TAUMATURGO.

que Damis e Filóstrato tinham pouco entendimento do assunto e deram rédea solta à imaginação em suas narrativas.

(Veja ii. 4; iv. 20, 25; v. 42; vi. 27, 43.) Talvez, no entanto, Filostrato em alguns casos esteja apenas repetindo a lenda popular, cujo melhor exemplo é a cura da peste em Éfeso, que o tianeano havia predito em tantas ocasiões.

A lenda popular queria que a causa da peste fosse atribuída a um velho mendigo, que foi enterrado sob uma pilha de pedras pela população enfurecida.

Quando Apolônio ordenou que as pedras fossem removidas, descobriu-se que o que fora um mendigo era agora um cão raivoso espumando pela boca (iv. 10)!

Ao contrário, o relato de Apolônio "restaurando à vida" uma jovem de nascimento nobre em Roma é contado com grande moderação.

Nosso filósofo parece ter encontrado a procissão fúnebre por acaso; onde, de repente, aproximou-se do féretro e, após fazer alguns passes sobre a donzela e proferir algumas palavras inaudíveis, "despertou-a de sua morte aparente". Mas, diz Damis, "se Apolônio notou que a centelha da alma ainda estava viva, o que seus amigos não haviam percebido — dizem que chovia levemente e um leve vapor se mostrava em seu rosto — ou se ele reaqueceu a vida nela e assim a restaurou," nem ele mesmo nem qualquer um dos presentes poderia dizer (iv. 45).


De natureza distintamente mais fenomenal são as histórias de Apolônio fazendo desaparecer a escrita das tábuas de um de seus acusadores diante de Tigelino (iv. 44); de ele tirar a perna das algemas para mostrar a Damis que não era realmente um prisioneiro, embora acorrentado nos calabouços de Domiciano (vii. 38); e de seu "desaparecimento" (ἀφανισθῆναι) do tribunal (viii. 5).

Não devemos, no entanto, supor que Apolônio desprezava ou negligenciava o estudo dos fenômenos físicos em sua devoção à ciência interior das coisas.

Ao contrário, temos vários exemplos de sua rejeição da mitologia em favor de uma explicação física dos fenômenos naturais.

Tais são, por exemplo, suas explicações da atividade vulcânica do Etna (v. 14, 17), e de uma onda de maré em Creta, esta última acompanhada de uma indicação correta do resultado mais imediato do ocorrido.

De fato, uma ilha havia sido lançada ao mar por uma perturbação submarina, como foi posteriormente verificado (iv. 34). A explicação das marés em Cádis também pode ser colocada na mesma categoria (v. 2).

* Esta expressão é, no entanto, talvez apenas retórica, pois em viii. 8, o incidente é referido nas palavras simples "quando ele partiu (aTrfjXOe) do tribunal."

SEÇÃO XIII.

SEU MODO DE VIDA.

Apresentaremos agora ao leitor algumas indicações gerais sobre o modo de vida de Apolônio e a maneira de seu ensino, sobre o qual já algo foi dito sob o título "Vida Inicial".

Nosso filósofo era um seguidor entusiasta da disciplina pitagórica; mais ainda, Filóstrato quer que acreditemos que ele fez esforços mais sobre-humanos para alcançar a sabedoria do que até mesmo o grande Samiano (i. 2). As formas exteriores dessa disciplina, como exemplificadas em Pitágoras, são assim resumidas por nosso autor.

"Nada usaria que viesse de um animal morto, nem tocaria um pedaço de algo que já tivesse vida, nem o ofereceria em sacrifício; não para ele manchar os altares com sangue; mas bolos de mel e incenso, e o serviço de seu canto subiam do homem até os Deuses, pois bem sabia que eles aceitariam tais presentes muito mais do que os bois às centenas com a faca.

Pois ele, na verdade, conversava com os Deuses e aprendia deles como estavam satisfeitos com os homens e como descontentes, e daí também extraía seu conhecimento da natureza.

Quanto ao resto, dizia ele, os outros adivinhavam o divino e tinham opiniões sobre os Deuses que se provavam mutuamente falsas; mas a ele o próprio Apolo vinha, confessado, sem disfarce,* e também vinham, embora não confessados, Atena e as Musas, e outros Deuses cujas formas e nomes a humanidade ainda não conhecia."

Por isso seus discípulos consideravam Pitágoras um mestre inspirado e recebiam suas regras como leis.

"Em particular, guardavam a regra do silêncio quanto à ciência divina.

Pois ouviam dentro de si muitas coisas divinas e inefáveis, sobre as quais lhes teria sido difícil guardar silêncio, se não tivessem primeiro aprendido que era justamente esse silêncio que lhes falava" (i. 1).

Tal era a declaração geral da natureza da disciplina pitagórica por seus discípulos.

Mas, diz Apolônio em seu discurso aos Gimnosofistas, Pitágoras não foi o inventor dela. Era a sabedoria imemorial, e o próprio Pitágoras a aprendera dos indianos.* Essa sabedoria, continuou ele, falara-lhe em sua juventude; ela dissera:

* Isto é, não em uma "forma", mas em sua própria natureza. † Ver a este respeito L. v. Schroeder, *Pitágoras e*

SEU MODO DE VIDA.

"Pois o sentido, jovem senhor, não tenho encantos; minha taça está cheia de labores até a borda.

Se alguém abraçar meu modo de vida, deve resolver a banir de sua mesa todo alimento que outrora teve vida, a perder a memória do vinho, e assim não mais macular a taça da sabedoria — a taça que consiste em almas não contaminadas pelo vinho.

Nem a lã o aquecerá, nem nada que seja feito de qualquer animal.

Dou a meus servos sandálias de fibra e, como puderem, o sono.

E se os encontrar vencidos pelos deleites do amor, tenho prontas fossas nas quais aquela justiça que segue de perto o pé da sabedoria os arrasta e empurra; na verdade, tão severa sou com aqueles que escolhem meu caminho, que até mesmo em suas línguas prendo uma corrente.

Agora ouve de mim o que ganharás, se suportares.

Um inato senso de conveniência e de justiça, e nunca sentir que a sorte de alguém é melhor que a tua; fazer os tiranos tremerem de medo, em vez de ser um escravo amedrontado da tirania; ter os Deuses a abençoar mais grandemente tuas escassas oferendas do que aqueles que derramam diante deles sangue de touros."

Se és puro, dar-te-ei a conhecer o que será, e encherei teus olhos de tanta luz, que reconhecerás os Deuses, conhecerás os heróis, e provarás e examinarás as formas sombrias que simulam a aparência de homens" (vi. 11).

die Inder, eine Untersuchung iiber Herkunft und Abstammung der pythagoreischen Lehren (Leipzig; 1884).


Toda a vida de Apolônio mostra que ele procurou seguir consistentemente esta regra de vida, e as repetidas declarações de que jamais se uniria aos sacrifícios de sangue dos cultos populares (ver especialmente i. 24, 31; iv. 11; v. 25), mas os condenava abertamente, mostram não apenas que a escola pitagórica sempre dera o exemplo do caminho superior de oferendas mais puras, mas que eles não eram condenados e perseguidos como hereges por causa disso, mas antes considerados como de santidade peculiar, e como seguindo uma vida superior à dos mortais comuns.

A abstenção da carne de animais, contudo, não se baseava simplesmente em ideias de pureza; encontrava sanção adicional no amor positivo pelos reinos inferiores e no horror de infligir dor a qualquer criatura viva.

Assim, Apolônio recusou terminantemente a participar da caçada, quando convidado a fazê-lo por seu anfitrião real na Babilônia.

"Majestade", respondeu ele, "esquecestes que mesmo quando sacrificais não estarei presente? Muito menos então daria eu a morte a esses animais, e tanto mais quando seu espírito está quebrantado e estão encerrados contra sua natureza" (i. 38).*

Mas embora Apolônio fosse um severo disciplinador de si mesmo, não desejava

* Isto se refere aos parques de caça preservados, ou "paraísos", dos monarcas babilônios.

SEU MODO DE VIDA.

impor seu modo de vida a outros, nem mesmo a seus amigos pessoais e companheiros (desde que, naturalmente, não o adotassem por livre vontade). Assim, ele diz a Damis que não deseja proibi-lo de comer carne e beber vinho; simplesmente exige o direito de abster-se ele mesmo e de defender sua conduta, se for chamado a fazê-lo (ii, 7). Isso é uma indicação adicional de que Damis não era membro do círculo interno de disciplina, e este último fato explica por que um seguidor tão fiel da pessoa de Apolônio estava, no entanto, tão às escuras.

Não apenas isso, mas Apolônio chega a dissuadir o Kajah Phraotes, seu primeiro anfitrião na Índia, que desejava adotar sua regra estrita, de fazê-lo, sob o fundamento de que isso o afastaria demasiadamente de seus súditos (ii. 37).

Três vezes ao dia Apolônio orava e meditava; ao amanhecer (vi. 10, 18; vii. 31), ao meio-dia (vii. 10), e ao pôr do sol (viii. 13). Este parece ter sido seu costume invariável; não importa onde estivesse, parece ter dedicado ao menos alguns momentos à meditação silenciosa nesses horários.

O objeto de seu culto é sempre dito ter sido o "Sol", isto é, o Senhor de nosso mundo e de seus mundos irmãos, cujo glorioso símbolo é o orbe do dia.

Já vimos no breve esboço dedicado à sua "Vida Inicial" como ele dividia o dia e repartia seu tempo entre suas diferentes classes de ouvintes e inquiridores.


Seu estilo de ensinar e falar era o oposto do de um retórico ou orador profissional.

Não havia arte em suas frases, nenhum esforço por efeito, nenhuma afetação.

Mas ele falava "como de um tripé", com palavras tais como "Eu sei", "Parece-me", "Por que vós", "Deveis saber". Suas frases eram curtas e compactas, e suas palavras carregavam convicção e se ajustavam aos fatos.

Sua tarefa, declarou ele, não era mais buscar e questionar como fizera em sua juventude, mas ensinar o que sabia (i. 17). Não usava a dialética da escola socrática, mas queria que seus ouvintes se voltassem de tudo o mais e dessem ouvidos apenas à voz interior da filosofia (iv. 2). Extraía suas ilustrações de qualquer acontecimento fortuito ou ocorrência caseira (iv. 3; vi. 3, 38), e tudo aproveitava para o aperfeiçoamento de seus ouvintes.

Quando levado a julgamento, não faria nenhuma preparação para sua defesa.

Ele vivera sua vida conforme ela vinha, dia após dia, preparado para a morte, e continuaria a fazê-lo (viii. 30). Além disso, era agora sua escolha deliberada desafiar a morte em prol da filosofia.

E assim, às repetidas solicitações de seu velho amigo para que preparasse sua defesa, respondeu:

"Damis, pareces perder o juízo diante da morte, embora tenhas estado tanto tempo comigo e eu tenha amado a filosofia desde minha juventude; * pensei que estivesses tanto preparado para a morte quanto ciente de minha conduta geral nesse assunto.

Pois, assim como os guerreiros no campo de batalha necessitam não apenas de boa coragem, mas também daquele comando que lhes diz quando lutar, assim também aqueles que amam a sabedoria devem estudar cuidadosamente os bons momentos para morrer, a fim de escolherem o melhor e não serem mortos totalmente despreparados.

Que escolhi o melhor e selecionei o momento que mais convém à sabedoria para dar batalha à morte — se é que alguém desejaria matar-me — provei a outros amigos quando estavas presente, nem jamais cessei de ensinar-te somente isso" (vii. 31).

As acima são algumas poucas indicações de como nosso filósofo viveu, sem temer nada senão a deslealdade ao seu elevado ideal.

Agora faremos menção a alguns de seus traços mais pessoais e a alguns dos nomes de seus seguidores.

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SEÇÃO XIV.

ELE MESMO E SEU CÍRCULO.

Diz-se que Apolônio era muito belo de se ver (i. 7, 12; iv. 1); * mas além disso não temos nenhuma descrição muito definida de sua pessoa.

Seu modo era sempre afável e gentil (i. 36; ii. 22) e modesto (iv. 31; viii. 15), e nisso, diz Damis, ele se assemelhava mais a um indiano do que a um grego (iii. 36); contudo, ocasionalmente, irrompia com indignação contra alguma enormidade particular (iv. 30). Seu humor era frequentemente pensativo (i. 34), e quando não falava, permanecia por longo tempo imerso em profunda meditação, durante a qual

* Rathgeber (G.), em sua obra *Grossgriechenland und Pythagoras* (Gotha; 1866), um trabalho de maravilhosa diligência bibliográfica, refere-se a três supostos retratos de Apolônio (p. 621). (i) No Museu do Campidoglio, no Vaticano, *Indicazione delle Sculture* (Roma; 1840), p. 68, n.ºs 75, 76, 77; (ii) no Museu Real Bourbon, descrito por Michel B. (Nápoles; 1837), p. 79, n.º 363; (iii) um contorniate reproduzido por Visconti. Não consigo localizar sua primeira referência, mas em um *Guide pour le Musée Royal Bourbon*, traduzido por C. J. J. (Nápoles; 1831), encontro na p. 152 que o n.º 363 é um busto de Apolônio, com 2,5 pés de altura, executado com cuidado, com uma cabeça semelhante à de Zeus, tendo barba e longos cabelos que descem

ELE MESMO E SEU CÍRCULO.

seus olhos estavam firmemente fixos no chão (i. 10 e *et al.*).

Embora, como vimos, fosse inflexivelmente severo consigo mesmo, estava sempre pronto a apresentar desculpas para os outros; se, por um lado, louvava a coragem daqueles poucos que permaneceram com ele em Roma, por outro, recusava-se a culpar pela covardia os muitos que haviam fugido (iv. 38). Nem sua gentileza se manifestava simplesmente pela abstenção de censura; ele era sempre ativo em atos positivos de compaixão (cf. vi. 39).

Uma de suas pequenas peculiaridades era o gosto de ser tratado por "Tianeano" (vii. 38), mas por que assim era, não nos é dito.

Dificilmente teria sido porque Apolônio se orgulhava particularmente de seu local de nascimento, pois ainda que fosse um grande amante da Grécia, a ponto de às vezes você o chamar de patriota entusiasta, seu amor por outras

sobre os ombros, presos com uma faixa profunda.

O busto parece ser antigo.

Não consegui, no entanto, encontrar uma reprodução dela. Visconti (E. Q.), no atlas de sua *Iconographie Grecque* (Paris; 1808), vol. i., prancha 17, frente à p. 68, apresenta a reprodução de um contorniato, ou medalha com borda circular, em um dos lados da qual há uma cabeça de Apolônio e a legenda latina APOLLONIVS TEANEVS.

Isso também representa nosso filósofo com barba e cabelos longos; a cabeça é coroada, e a parte superior do corpo coberta com uma túnica e o manto de filósofo.

A medalha, no entanto, é de lavor muito inferior, e o retrato não é de modo algum agradável.

Visconti, em seu texto impresso, dedica um parágrafo irado e desdenhoso a Apolônio, "ce trop celebre imposteur", como o chama, baseado em De Tilleinont.


países era igualmente pronunciado.

Apolônio era um cidadão do mundo, se é que algum já existiu, em cuja fala a palavra pátria não entrava, e um sacerdote da religião universal em cujo vocabulário a palavra seita não existia.

Apesar de sua vida extremamente ascética, era um homem de físico robusto, de modo que mesmo quando alcançou a idade madura de oitenta anos, somos informados, era são e saudável em todos os membros e órgãos, ereto e perfeitamente formado.

Havia também um certo encanto indefinível nele que o tornava mais agradável de se olhar do que até mesmo o frescor da juventude, e isso mesmo com o rosto sulcado de rugas, tal como as estátuas no templo de Tiana o representavam na época de Filóstrato.

De fato, diz seu biógrafo retórico, a fama cantava louvores mais altos sobre o encanto de Apolônio em sua velhice do que sobre a beleza de Alcibíades em sua juventude (viii. 29).

Em suma, nosso filósofo parece ter tido uma presença encantadora e uma disposição amável; nem sua devoção absoluta à filosofia era da natureza do ideal eremítico, pois passou a vida entre os homens.

Que maravilha, então, que atraiu para si muitos seguidores e discípulos! Teria sido interessante se Filóstrato nos tivesse contado mais sobre esses "apolônios", como eram chamados (viii. 21), e se eles

ELE MESMO E SEU CÍRCULO.

constituíam uma escola distinta, ou se estavam agrupados em comunidades segundo o modelo pitagórico, ou se eram simplesmente estudantes independentes atraídos pela personalidade mais imponente da época no domínio da filosofia.

É, no entanto, certo que muitos deles usavam a mesma vestimenta que ele e seguiam seu modo de vida (iv. 39). Menção repetida é também feita de seu acompanhamento a Apolônio em suas viagens (iv. 47; v. 21; viii. 19, 21, 24), às vezes até dez deles ao mesmo tempo, mas a nenhum deles era permitido dirigir-se a outros até que tivessem cumprido o voto de silêncio (v. 43).

Os mais distintos de seus seguidores foram Musônio, que era considerado o maior filósofo da época depois do Tianeano, e que foi a vítima especial da tirania de Nero (iv. 44; v. 19; vii. 16), e Demétrio, "que amava Apolônio" (iv. 25, 42; v. 19; vi. 31; vii. 10; viii. 10). Esses nomes são bem conhecidos da história; entre os nomes de outra forma desconhecidos estão o egípcio Dioscórides, que foi deixado para trás devido à saúde frágil na longa jornada à Etiópia (iv. 11, 38; v. 43), Menipo, a quem ele libertara de uma obsessão (iv. 25, 38; v. 43), Fedimo (iv. 11), e Nilo, que se juntou a ele vindo dos Gimnosofistas (v. 10 segs., 28), e, naturalmente, Damis, que gostaria que pensássemos que estava sempre com ele desde o momento de seu encontro em Nino.


No geral, estamos inclinados a pensar que Apolônio não estabeleceu nenhuma organização nova; ele fez uso das já existentes, e seus discípulos eram aqueles que eram atraídos a ele pessoalmente por uma afeição avassaladora que só podia ser satisfeita estando continuamente perto dele.

Isto parece certo: que ele não treinou ninguém para dar continuidade à sua tarefa; ele veio e foi, ajudando e iluminando, mas não transmitiu nenhuma tradição de uma linha definida, e não fundou nenhuma escola a ser continuada por sucessores.

Mesmo ao seu companheiro sempre fiel, ao despedir-se dele para o que sabia ser a última vez para Damis na terra, não teve palavra alguma a dizer sobre a obra à qual dedicara a vida, mas que Damis jamais compreendera.

Suas últimas palavras foram somente para Damis, para o homem que o amara, mas que nunca o conhecera.

Foi uma promessa de vir até ele se precisasse de ajuda.

"Damis, sempre que pensares em assuntos elevados em meditação solitária, tu me verás" (viii. 28).

Voltaremos agora nossa atenção para a consideração de alguns dos ditos atribuídos a Apolônio e dos discursos postos em sua boca por Filóstrato.

Os ditos mais curtos são, com toda probabilidade, autenticamente tradicionais, mas os discursos são, em sua maior parte, manifestamente a elaboração artística das anotações brutas de Damis.

Na verdade, declara-se explicitamente que assim o são; mas nem por isso deixam de ser interessantes, e por duas razões.

Em primeiro lugar, confessam honestamente sua natureza e não reivindicam inspiração alguma; são reconhecidamente documentos humanos que se esforçam por dar uma roupagem literária ao corpo tradicional de pensamento e esforço que a vida do filósofo construiu nas mentes de seus ouvintes.

O método era comum à antiguidade, e os antigos compiladores de certas outras séries de documentos famosos teriam ficado estupefatos se pudessem ver como a posteridade divinizaria seus esforços e os consideraria imediatamente inspirados pela fonte de toda sabedoria.

Em segundo lugar, embora não devamos supor que estamos lendo as palavras reais de Apolônio, estamos, no entanto, conscientes de estar em contato imediato com a atmosfera interior do melhor pensamento religioso da mente grega, e temos diante de nossos olhos o quadro de uma fermentação mística e espiritual que levedou todas as camadas da sociedade no primeiro século de nossa era.

SEÇÃO XV. DE SEUS DITOS E SERMÕES.

APOLÔNIO acreditava na oração, mas quão diferentemente do vulgo.

Para ele, a ideia de que os Deuses pudessem ser desviados do caminho da justiça rígida pelas súplicas dos homens era uma blasfêmia; que os Deuses pudessem se tornar partes de nossos egoístas anseios e temores era, para nosso filósofo, impensável.

Uma única coisa ele sabia: que os Deuses eram os ministros do direito e os rígidos dispensadores do justo merecimento.

A crença comum, que persistiu até os nossos dias, de que Deus pode ser desviado de Seu propósito, de que pactos poderiam ser feitos com Ele ou com Seus ministros, era inteiramente abominável para Apolônio.

Seres com os quais tais pactos pudessem ser feitos, que pudessem ser desviados e mudados, não eram Deuses, mas menos que homens.

E assim encontramos Apolônio, quando jovem, conversando com um dos sacerdotes de Esculápio da seguinte maneira:

"Visto que os Deuses sabem todas as coisas, penso que aquele que entra no templo com uma

DE SEUS DITOS E SERMÕES.

consciência reta dentro de si deveria orar assim: 'Dai-me, ó Deuses, o que é meu devido!'" (i. 11).

E assim, novamente, em sua longa jornada à Índia, ele orou na Babilônia: "Deus do sol, envia-me sobre a terra até onde for bom para Ti e para mim; e que eu possa conhecer o bem, e nunca conhecer o mal, nem ele me conheça" (i, 31).

Uma de suas orações mais gerais, conta-nos Damis, era neste sentido: "Concedei-me, ó Deuses, ter pouco e nada precisar" (i. 34).

"Quando entrais nos templos, por que orais?" perguntou o Pontífice Máximo Telesino ao nosso filósofo.

"Eu oro", disse Apolônio, "para que a retidão reine, as leis permaneçam intactas, os sábios sejam pobres e os outros ricos, mas honestamente" (iv. 40).

A crença do filósofo no grande ideal de nada ter e, no entanto, possuir todas as coisas, é exemplificada por sua resposta ao oficial que lhe perguntou como ousava entrar nos domínios da Babilônia sem permissão.

"Toda a terra", disse Apolônio, "é minha; e me é dado viajar através dela" (i. 21).

Há muitos exemplos de somas de dinheiro oferecidas a Apolônio por seus serviços, mas ele invariavelmente as recusava; não apenas isso, mas seus seguidores também recusavam todos os presentes.

Na ocasião em que o rei Vardan, com verdadeira generosidade oriental, ofereceu-lhes presentes, eles se afastaram; ao que Apolônio disse: "Vês, minhas mãos, embora muitas, são todas semelhantes entre si." E quando o rei perguntou a Apolônio que presente ele lhe traria de volta da Índia, nosso filósofo respondeu: "Um presente que vos agradará, senhor. Pois se minha estada lá me tornar mais sábio, voltarei a vós melhor do que sou" (i. 41).

Quando atravessavam as grandes montanhas para a Índia, diz-se que ocorreu uma conversa entre Apolônio e Damis, que nos apresenta um bom exemplo de como nosso filósofo sempre usava os incidentes do dia para inculcar as lições superiores da vida.

A questão era sobre o "embaixo" e o "acima". Ontem, disse Damis, estávamos embaixo, no vale; hoje estamos acima, no alto das montanhas, não muito distantes do céu.

"Então é isso que queres dizer com 'embaixo' e 'acima'", disse Apolônio suavemente.

"Ora, é claro", retorquiu Damis impacientemente, "se estou em meu juízo perfeito; que necessidade há de perguntas tão inúteis? E adquiriste um maior conhecimento da natureza divina por estares mais perto do céu no topo das montanhas?" continuou seu mestre.

"Pensas que aqueles que observam o céu das alturas das montanhas estão mais próximos da compreensão das coisas? Verdade para DE SEUS DITOS E SERMÕES.


— Diga — respondeu Damis, um tanto desanimado —, pensei que desceria mais sábio, pois subi uma montanha mais alta do que qualquer uma delas, mas temo não saber mais do que antes de subi-la. — Nem outros homens sabem — respondeu Apolônio —; tais observações fazem-nos ver os céus mais azuis, as estrelas maiores e o sol nascer da noite, coisas conhecidas daqueles que cuidam das ovelhas e cabras; mas como Deus cuida da humanidade, e como Ele se compraz em seu serviço, e o que é virtude, retidão e bom senso, isso nem o Atos revelará àqueles que escalam seu cume, nem o Olimpo, que desperta a admiração do poeta, a menos que a alma o perceba; pois se a alma, pura e sem mistura, tentar tais alturas, juro-te que ela alça voo muito, muito além deste elevado Cáucaso (ii. 6).

Assim também, quando em Termópilas seus seguidores disputavam sobre qual era o ponto mais alto da Grécia, estando o Monte Eta à vista.

Aconteceu que estavam exatamente ao pé da colina onde os espartanos caíram, sobrecarregados de flechas.

Subindo ao topo dela, Apolônio exclamou: "E eu considero este o ponto mais alto, pois aqueles que caíram aqui pela liberdade o elevaram à altura do Eta e o ergueram muito acima de mil Olimpos" (iv. 23).

Outro exemplo de como Apolônio transformava acontecimentos fortuitos em bom proveito é o seguinte.


Certa vez, em Éfeso, em uma das galerias cobertas próximas à cidade, ele falava sobre compartilhar nossos bens com os outros e como devemos ajudar-nos mutuamente.

Aconteceu que vários pardais estavam pousados em uma árvore próxima, em perfeito silêncio.

De repente, outro pardal voou e começou a chilrear, como se quisesse contar algo aos outros.

Então os pequeninos todos começaram a chilrear também e voaram atrás do recém-chegado.

A plateia supersticiosa de Apolônio ficou muito impressionada com essa conduta dos pardais e pensou que fosse um augúrio de algum assunto importante.

Mas o filósofo continuou seu sermão.

O pardal, disse ele, convidou seus amigos para um banquete.

Um menino escorregou num beco próximo e derramou um pouco de milho que carregava numa tigela; ele recolheu a maior parte e foi embora.

O pequeno pardal, encontrando os grãos espalhados, voou imediatamente para convidar seus amigos para o banquete.

Com isso, a maior parte da multidão saiu correndo para ver se era verdade, e quando voltaram gritando e tomados de admiração, o filósofo continuou: "Vedes que cuidado têm os pardais uns com os outros, e quão felizes são em compartilhar todos os seus bens.

E, no entanto, nós, homens, não aprovamos; antes, se vemos um homem

DOS SEUS DITOS E SERMÕES.

compartilhando seus bens com outros homens, chamamos a isso desperdício, extravagância, e por tais nomes, e tachamos os homens com quem ele compartilha de bajuladores e parasitas.

Que nos resta, então, senão fecharmo-nos em casa como aves de engorda, e empanturrar nossos ventres na escuridão até estourarmos de gordura?" (iv. 3).

Em outra ocasião, em Esmirna, Apolônio, vendo um navio a levantar âncora, aproveitou a ocasião para ensinar ao povo a lição da cooperação.

"Contemplai a tripulação do navio!" disse ele.

"Como alguns ocuparam os botes, outros erguem as âncoras e as fixam, outros armam as velas para apanhar o vento, e outros ainda vigiam à proa e à popa.

Mas se um único homem falhar em uma única dessas suas obrigações, ou atrapalhar-se em sua arte de navegar, a navegação será má, e terão a tempestade entre eles.

Mas se se esforçarem em rivalidade, cada um com o outro, sendo sua única disputa que nenhum homem pareça pior que seus companheiros, haverá portos seguros para tal navio, e todo bom tempo e boa viagem se acumularão sobre ele" (iv. 9).

Ainda, em outra ocasião, em Rodes, Damis perguntou-lhe se achava algo maior que o famoso Colosso.

"Acho", respondeu Apolônio; "o homem que caminha pelos caminhos sem dolo da sabedoria que nos dão saúde" (v. 21).


Há também uma série de instâncias de respostas espirituosas ou sarcásticas atribuídas ao nosso filósofo e, de fato, apesar de seu humor geralmente grave, não raramente ele zombava de seus ouvintes e, às vezes, se assim podemos dizer, tirava-lhes a tolice (ver especialmente iv. 30).

Mesmo em tempos de grande perigo essa característica se manifesta.

Um bom exemplo é sua resposta à perigosa questão de Tigelino: "Que pensais de Nero?" "Penso melhor dele do que vós", retorquiu Apolônio, "pois vós pensais que ele deveria cantar, e eu penso que ele deveria calar-se" (iv. 44).

Assim também sua repreensão a um jovem Creso da época é tão espirituosa quanto sábia.

"Jovem senhor", disse ele, "parece-me que não sois vós quem possui vossa casa, mas vossa casa que vos possui" (v. 22).

Do mesmo estilo é também sua resposta a um glutão que se vangloriava de sua gula.

Ele imitava Hércules, dizia, que era tão famoso pela comida que comia quanto por seus trabalhos.

"Sim", disse Apolônio, "pois ele era Hércules.

Mas vós, que virtude tendes, monturo? Vossa única pretensão à notoriedade é vossa chance de estourar" (iv. 23).

Mas passemos a ocasiões mais sérias.

Em resposta à fervorosa súplica de Vespasiano: "Ensinai-me o que deve fazer um bom rei", diz-se que Apolônio respondeu algo como as seguintes palavras:

DOS SEUS DITOS E SERMÕES.

"Perguntais-me o que não pode ser ensinado.

Pois a realeza é a maior coisa ao alcance de um mortal; ela não se ensina.

Contudo, dir-vos-ei o que, se fizerdes, fareis bem.

Não considereis riqueza aquilo que está entesourado — em que isso é superior à areia amontoada ao acaso? Nem aquilo que provém de homens que gemem sob o pesado fardo da tributação — pois o ouro que vem de lágrimas é vil e negro.

Usareis a riqueza melhor do que qualquer rei, se suprirdes as necessidades dos necessitados e tornardes segura a riqueza daqueles que têm muitos bens.

Temei o poder de fazer o que vos aprouver; assim o usareis com mais prudência."

Não corte as espigas de milho que se elevam acima das demais e erguem suas cabeças — pois Aristóteles não é justo nisso* — mas antes arranque sua desafeição como joio do trigo, e mostre-se um temor para os instigadores de discórdia, não em "eu o puno", mas em "eu o farei". Submeta-se à lei, ó príncipe, pois fará as leis com maior sabedoria se não desprezar a lei você mesmo.

Preste reverência mais do que nunca aos Deuses; grandes são os dons que deles recebestes, e por grandes coisas orais.† No que concerne ao Estado, aja como rei; no que concerne a si mesmo, aja como

* Ver Chassang, op. cit., p. 458, para uma crítica a esta afirmação.

† Isto foi antes de Vespasiano tornar-se imperador.


um homem privado" (v. 36). E assim por diante, muito no mesmo tom, tudo bons conselhos e demonstrando um profundo conhecimento dos assuntos humanos.

E se devemos supor que isto é meramente um exercício retórico de Filóstrato e não baseado na substância do que Apolônio disse, então devemos ter uma opinião mais elevada do retórico do que o restante de seus escritos justifica.

Há um diálogo socrático extremamente interessante entre Tespésion, o abade da comunidade dos Gimnosofistas, e Apolônio sobre os méritos comparativos das maneiras grega e egípcia de representar os Deuses.

Ele se desenrola mais ou menos assim:

"Como! Devemos pensar," disse Tespésion, "que os Fídias e os Praxíteles subiram ao céu e tomaram impressões das formas dos Deuses, e assim fizeram uma arte delas, ou foi algo mais que os pôs a modelar?"

"Sim, algo mais," disse Apolônio, "algo repleto de sabedoria."

"O que foi isso? Certamente não podes dizer que foi outra coisa senão imitação?"

"A imaginação as forjou — uma artífice muito mais sábia que a imitação; pois a imitação apenas faz o que viu, ao passo que a imaginação faz o que nunca viu, concebendo-o com referência à coisa que realmente é."

A imaginação, diz Apolônio, é uma das

DE SEUS DITOS E SERMÕES.

faculdades mais potentes, pois nos permite aproximar-nos mais das realidades.

Geralmente se supõe que a escultura grega era meramente uma glorificação da beleza física, em si mesma bastante não espiritual.

Era uma idealização da forma e das feições, dos membros e dos músculos, uma vazia glorificação do físico, sem nada, é claro, que realmente lhe correspondesse na natureza das coisas.

Mas Apolônio declarou que ela nos aproxima do real, como Pitágoras e Platão declararam antes dele, e como todos os mais sábios ensinam.

Ele queria dizer isso literalmente, não de modo vago e fantástico.

Ele afirmou que os tipos e as ideias das coisas são as únicas realidades.

Ele queria dizer que entre a imperfeição da terra e o mais elevado tipo divino de todas as coisas, havia graus de perfeição crescente.

Ele queria dizer que dentro de cada homem havia uma forma de perfeição, embora, é claro, ainda não absolutamente perfeita.

Que o anjo no homem, seu daemon, era de beleza divina, a soma de todas as mais belas feições que ele já havia usado em suas muitas vidas na terra.

Os Deuses, também, pertenciam ao mundo dos tipos, dos modelos, das perfeições, o mundo celestial.

Os escultores gregos haviam conseguido entrar em contato com esse mundo, e a faculdade que usavam era a imaginação.

Essa idealização da forma era um modo digno de representar os Deuses; mas, diz Apolônio, se ergueis um falcão, uma coruja ou um cão em vossos templos, para representar Hermes, Atena ou Apolo, podeis dignificar os animais, mas fazeis os Deuses perderem dignidade.


A isso Tespésion responde que os egípcios não ousam dar qualquer forma precisa aos Deuses; dão-lhes meramente símbolos aos quais um significado oculto está ligado.

Sim, responde Apolônio, mas o perigo é que o povo comum adore esses símbolos e tenha ideias feias dos Deuses.

O melhor seria não ter representação alguma.

Pois a mente do adorador pode formar e moldar para si mesmo uma imagem do objeto de sua adoração melhor do que qualquer arte.

Exato, retrucou Tespésion, e então acrescentou maliciosamente: Havia um velho ateniense, aliás — nada tolo — chamado Sócrates, que jurava pelo cão e pelo ganso como se fossem Deuses.

Sim, respondeu Apolônio, ele não era tolo.

Ele jurava por eles não como sendo Deuses, mas para não jurar pelos Deuses (iv. 19).

Esta é uma passagem agradável de engenho, do egípcio contra o grego, mas todos esses argumentos preestabelecidos devem ser atribuídos aos exercícios retóricos de Filóstrato, e não a Apolônio, que ensinava como "quem tem autoridade", como "de um tripé". Apolônio, um sacerdote da religião universal, poderia ter apontado o lado bom e o lado mau tanto da arte religiosa grega quanto da egípcia, e certamente ensinava o caminho superior do culto sem símbolos, mas não defenderia um culto popular contra outro.

DE SEUS DITOS E SERMÕES.

No discurso acima há um claro preconceito contra o Egito e uma glorificação da Grécia, e isso ocorre de maneira muito marcante em vários outros discursos.

Filóstrato era um campeão da Grécia contra todos os adversários; mas Apolônio, acreditamos, era mais sábio do que seu biógrafo.

Apesar do vestuário literário artificial que é dado aos discursos mais longos de Apolônio, eles contêm muitos pensamentos nobres, como podemos ver nas seguintes citações das conversas de nosso filósofo com seu amigo Demétrio, que se esforçava para dissuadi-lo de enfrentar Domiciano em Roma.

A lei, disse Apolônio, nos obriga a morrer pela liberdade, e a natureza determina que devemos morrer por nossos pais, nossos amigos ou nossos filhos.

Todos os homens estão vinculados a esses deveres.

Mas um dever mais elevado é imposto ao sábio; ele deve morrer por seus princípios e pela verdade que considera mais preciosa do que a vida.

Não é a lei que lhe impõe essa escolha, não é a natureza; é a força e a coragem de sua própria alma.

Embora o fogo ou a espada o ameacem, isso não vencerá sua resolução nem extrairá dele a menor falsidade; mas ele guardará os segredos da vida de outros e tudo o que foi confiado à sua honra tão religiosamente quanto os segredos da iniciação.


E sei mais do que outros homens, pois sei que de tudo o que sei, sei algumas coisas para o bem, algumas para os sábios, algumas para mim mesmo, algumas para os Deuses, mas nada para os tiranos.

Novamente, penso que o homem sábio nada faz sozinho ou por si mesmo; nenhum pensamento seu é tão secreto que não tenha a si mesmo como testemunha. E quer o famoso dito "conhece-te a ti mesmo" venha de Apolo ou de algum sábio que aprendeu a conhecer-se a si mesmo e o proclamou como um bem para todos, penso que o homem sábio que se conhece a si mesmo e tem seu próprio espírito em constante camaradagem, para combater à sua direita, não se acovardará diante do que o vulgo teme, nem ousará fazer o que a maioria dos homens faz sem a menor vergonha (vii. 15).

No que acima temos o desprezo do verdadeiro filósofo pela morte, e também o conhecimento calmo do iniciado, do consolador e conselheiro de outros a quem os segredos de suas vidas foram confessados, de que nenhuma tortura poderá jamais selar seus lábios.

Aqui, também, temos o pleno conhecimento do que é a consciência, da impossibilidade de esconder o menor traço de mal no mundo interior; e também o deslumbrante brilho de uma ética superior que torna a conduta habitual da multidão surpreendente — o "aquilo que eles fazem — não com vergonha."

SEÇÃO XVI.

DE SUAS CARTAS.

APOLÔNIO parece ter escrito muitas cartas a imperadores, reis, filósofos, comunidades e estados, embora de modo algum fosse um "correspondente volumoso"; na verdade, o estilo de suas breves notas é extremamente conciso, e foram compostas, como diz Filóstrato, "à maneira da cítala lacedemônia"* (iv. 27 e vii. 35).

É evidente que Filóstrato teve acesso a cartas atribuídas a Apolônio, pois cita várias delas,† e não parece haver razão para duvidar de sua autenticidade.

Donde ele obteve

* Esta era uma vara, ou bastão, usada como cifra para escrever despachos. "Uma tira de couro era enrolada obliquamente ao redor dela, na qual os despachos eram escritos longitudinalmente, de modo que, quando desenrolados, ficavam ininteligíveis; comandantes no estrangeiro tinham uma vara de espessura semelhante, em torno da qual enrolavam seus papéis, e assim podiam ler os despachos." (Liddell and Scott's Lexicon sub voc.) Daí cítala passou a significar geralmente um despacho espartano, que era caracteristicamente lacônico em sua brevidade.

f  Ver  i.  7,  15,  24,  32 ;  iii.

;  iv.  5,  22,  26,  27,  46 ;  v.  2,  10,  39,  40,  41 ;  vi.  18,  27,  29,  31,  33  ;  viii.

7,  20,  27,  28.

APOLÔNIO   DE   TIANA.

delas  ele  não  nos  informa,  a  menos  que  fossem  a  coleção  feita  por  Adriano  em  Âncio  (viii.

20).

Para  que  o  leitor  possa  julgar  o  estilo  de  Apolônio,  anexamos  um  ou  dois  espécimes  dessas  cartas,  ou  melhor,  notas,  pois  são  curtas  demais  para  merecerem  o  título  de  epístolas.

Eis  uma  aos  magistrados  de  Esparta  :

"  Apolônio  aos  Éforos,  saudação  !

"  É  possível  aos  homens  não  cometer  erros,  mas  é  próprio  de  homens  nobres  reconhecer  que  os  cometeram.  "

Tudo  o  que  Apolônio  expressa  em  apenas  metade  das  palavras  em  grego.

Eis,  novamente,  uma  troca  de  notas  entre  os  dois  maiores  filósofos  da  época,  ambos  os  quais  sofreram  prisão  e  estiveram  em  constante  perigo  de  morte.

"  Apolônio  a  Musônio,  o  filósofo,  saudação  !

"  Quero  ir  até  vós,  para  compartilhar  palavra  e  teto  convosco,  para  ser  de  alguma  utilidade  para  vós.

Se  ainda  acreditais  que  Hércules  outrora  resgatou  Teseu  do  Hades,  escrevei  o  que  desejais.

Adeus  !  "

"  Musônio  a  Apolônio,  o  filósofo,  saudação  !

"  Bom  mérito  será  guardado  para  vós  por  vossos  bons  pensamentos  ;  o  que  está  guardado  para  mim  é

DE    SUAS    CARTAS.

alguém  que  aguarda  seu  julgamento  e  prova  sua  inocência.

Adeus.  "

"  Apolônio  a  Musônio,  saudação  !

"  Sócrates  recusou  ser  tirado  da  prisão  por  seus  amigos  e  apresentou-se  diante  dos  juízes.

Foi  condenado  à  morte.

Adeus.  "

"  Musônio  a  Apolônio,  o  filósofo,  saudação  !

"  Sócrates  foi  condenado  à  morte  porque  não  fez  preparativos  para  sua  defesa.

Eu  o  farei.  Adeus  !  "

No  entanto,  Musônio,  o  estoico,  foi  enviado  a  trabalhos  forçados  por  Nero.

Eis  uma  nota  ao  cínico  Demétrio,  outro  dos  mais  devotados  amigos  de  nosso  filósofo.

"  Apolônio,  o  filósofo,  a  Demétrio,  o  Cão,  saudação  !

"  Eu  te  entrego  a  Tito,  o  imperador,  para  ensinares  a  ele  o  caminho  da  realeza,  e  tu,  por  tua  vez,  dai-me  a  oportunidade  de  falar-lhe  a  verdade  ;  e  sê  para  ele  todas  as  coisas,  exceto  a  ira.

Adeus  !  "

Além das notas citadas no texto de Filóstrato, há uma coleção de noventa e cinco cartas, em sua maioria breves bilhetes, cujo texto é impresso na maioria das edições. Quase todos os críticos

* I.e., Cínico.

† Chassang (op. cit., pp. 395 e seguintes) dá uma tradução francesa delas.


são de opinião de que não são genuínas, mas Jowett * e outros pensam que algumas delas podem muito bem ser genuínas.

Aqui está um espécime ou dois dessas cartas.

Escrevendo a Eufrates, seu grande inimigo, isto é, o campeão da ética racionalista pura contra a ciência das coisas sagradas, ele diz:

17. "Os persas chamam àqueles que têm a faculdade divina (ou são semelhantes aos deuses) de Magos.

Um Mago, então, é alguém que é um ministro dos Deuses, ou alguém que tem por natureza a faculdade semelhante aos deuses.

Você não é Mago, mas rejeita os Deuses (isto é, é um ateu)."

Novamente, em uma carta dirigida a Criton, lemos:

23. "Pitágoras disse que a arte mais divina era a da cura.

E se a arte de curar é a mais divina, deve ocupar-se tanto com a alma quanto com o corpo; pois nenhuma criatura pode ser sã enquanto a parte superior nela estiver doente."

Escrevendo aos sacerdotes de Delfos contra a prática do sacrifício de sangue, ele diz:

27. "Heráclito era um sábio, mas nem ele † jamais aconselhou o povo de Éfeso a lavar lama com lama." ‡

* Art. "Apolônio," Dicionário de Biografia Clássica de Smith.

† Isto é, um filósofo de 600 anos atrás.

‡ Isto é, expiar a culpa de sangue com sacrifício de sangue.

DE SUAS CARTAS.

Novamente, a alguns que afirmavam ser seus seguidores, aqueles "que se julgam sábios," ele escreve a repreensão:

43. "Se alguém diz que é meu discípulo, então acrescente que ele se mantém afastado dos Banhos, não mata nenhum ser vivo, não come de nenhuma carne, está livre de inveja, malícia, ódio, calúnia e sentimentos hostis, mas tem seu nome inscrito entre a raça daqueles que conquistaram sua liberdade."

Entre essas cartas encontra-se uma de considerável extensão dirigida a Valério, provavelmente P. Valério Asiático, cônsul em 70 d.C. É uma carta sábia de consolação filosófica para ajudar Valério a suportar a perda de seu filho, e segue assim: *

"Não há morte de ninguém, senão apenas na aparência, assim como não há nascimento de ninguém, salvo somente na aparência.

A mudança do ser para o devir parece ser nascimento, e a mudança do devir para o ser parece ser morte, mas na realidade ninguém jamais nasce, nem jamais morre.

É simplesmente um ser visível e depois invisível; o primeiro através da densidade da matéria, e o último devido à sutileza do ser — ser que é sempre o mesmo, cuja única mudança é movimento e repouso.

Pois o ser tem esta peculiaridade

* Chaignet (A. E.), em seu *Pythagore et la Philosophie pythagoricienne* (Paris; 1873, 2ª ed. 1874), cita isto como um exemplo genuíno da filosofia de Apolônio.


necessária: que sua mudança é provocada por nada externo a si mesmo; mas o todo torna-se partes e as partes tornam-se todo na unicidade do todo.

E se for perguntado: O que é isto que ora é visto e ora não é visto, agora no mesmo, agora no diferente? — poderia ser respondido: É o modo de tudo aqui no mundo inferior que, quando preenchido com matéria, é visível, devido à resistência de sua densidade, mas é invisível, devido à sua sutileza, quando está livre da matéria, embora a matéria ainda o envolva e flua através dele naquela imensidão de espaço que o cerca, mas não conhece nascimento nem morte.

"Mas por que essa noção falsa [de nascimento e morte] permaneceu tanto tempo sem refutação? Alguns pensam que o que aconteceu através deles, eles mesmos o provocaram.

Ignoram que o indivíduo é trazido ao nascimento através dos pais, não pelos pais, assim como uma coisa produzida através da terra não é produzida a partir dela. A mudança que sobrevém ao indivíduo não é nada que seja causado por seus arredores visíveis, mas antes uma mudança na única coisa que está em cada indivíduo."

E que outro nome podemos dar-lhe senão ser primordial? É só ele que age e sofre, tornando-se tudo para todos através de tudo, divindade eterna, privada e lesada de si mesma por nomes e formas.

Mas isto é coisa menos grave do que

DAS SUAS CARTAS.

o fato de que um homem seja pranteado, quando passou de homem a Deus por mudança de estado e não pela destruição de sua natureza.

O fato é que, longe de lamentar a morte, deves honrá-la e reverenciá-la. A melhor e mais adequada maneira de honrares a morte é agora deixares aquele que partiu com Deus, e pôr mãos à obra para governar os que ficaram sob tua responsabilidade, como costumavas fazer. Seria uma desonra para um homem como tu dever tua cura ao tempo e não à razão, pois o tempo faz até as pessoas comuns cessarem o luto.

A maior coisa é um governo forte, e dos maiores governantes, o melhor é aquele que primeiro sabe governar a si mesmo.

E como é permitido desejar mudar o que foi realizado pela vontade de Deus? Se há uma lei nas coisas — e há — e foi Deus quem a estabeleceu, o homem justo não terá desejo de tentar mudar as coisas boas, pois tal desejo é egoísmo e contrário à lei, mas considerará que tudo o que acontece é uma coisa boa.

Oh! Cura-te a ti mesmo, faze justiça aos miseráveis e consola-os; assim secarás as tuas lágrimas.

Não deves pôr as tuas dores particulares acima dos teus cuidados públicos, mas antes pôr os teus cuidados públicos diante das tuas dores particulares.

E vê também que consolação já tens! A nação se entristece contigo por teu filho.

Retribui algo àqueles que choram contigo; e isto farás mais depressa se cessares as lágrimas do que se ainda persistires.


Não tens amigos? Ora! Tens ainda outro filho.

Não tens ainda sequer aquele que se foi? Tens! — responderá qualquer um que realmente pense.

Pois o "que é" não cessa — não, é justamente pelo fato de que será para sempre; ou então o "não é" é, e como poderia isso ser, quando o "é" jamais deixa de ser?

"Novamente se dirá que falhais em piedade para com Deus e sois injusto.

É verdade.

Falhais em piedade para com Deus, falhais em justiça para com vosso filho; mais ainda, falhais em piedade para com ele também.

Quereis saber o que é a morte? Então fazei-me morto e enviai-me para a companhia da morte, e se não quiserdes mudar a vestimenta que lhe colocastes, tereis de imediato me feito melhor do que vós mesmo."

* Essa é a sua ideia de morte.

† O texto da última frase é muito obscuro.

SEÇÃO XVII.

OS ESCRITOS DE APOLÔNIO.

MAS além dessas cartas, Apolônio escreveu também uma série de tratados, dos quais, no entanto, apenas um ou dois fragmentos foram preservados.

Esses tratados são os seguintes:

a. Os Ritos Místicos ou Sobre os Sacrifícios.* Este tratado é mencionado por Filóstrato (iii.; iv. 19), que nos diz que ele estabelecia o método adequado de sacrifício a cada Deus, as horas apropriadas de oração e oferenda.

Ele circulava amplamente, e Filóstrato havia encontrado cópias dele em muitos templos e cidades, e nas bibliotecas dos filósofos.

Vários fragmentos dele foram preservados,† o mais importante dos quais se encontra em Eusébio,‡ e é do seguinte teor: "É melhor não fazer sacrifício algum a Deus, nenhum acender de

* O título completo é dado por Eudócia, Ionia; ed. Villoison (Veneza; 1781), p. 57.

† Ver Zeller, Phil. d. Griech, v. 127.

‡ Preparat. Evangel., iv. 12-13; ed. Dindorf (Leipzig; 1867), i. 176, 177.


fogo, nenhuma invocação d'Ele por qualquer nome que os homens empregam para as coisas dos sentidos.

Pois Deus está acima de tudo, o primeiro; e somente após Ele vêm os outros Deuses.

Pois Ele não necessita de nada, nem mesmo dos Deuses, muito menos de nós, pequenos homens — nada do que a terra produz, nem qualquer vida que ela nutre, ou mesmo qualquer coisa que o ar imaculado contém.

O único sacrifício adequado a Deus é a melhor razão do homem, e não a palavra* que sai de sua boca.

"Nós, homens, deveríamos pedir ao melhor dos seres através do que há de melhor em nós, aquilo que é bom — quero dizer, por meio da mente, pois a mente não necessita de coisas materiais para fazer sua oração."

Então, a Deus, o Poderoso, que está acima de tudo, nenhum sacrifício deveria jamais ser aceso."

Noack nos diz que a erudição está convencida da autenticidade deste fragmento.

Este livro, como vimos, foi amplamente divulgado e tido na mais alta estima, e dizia-se que suas regras estavam gravadas em colunas de bronze em Bizâncio.

6. Os Oráculos ou Sobre a Adivinhação, 4 livros.

Filóstrato (iii. 41) parece pensar que o título completo era Adivinhação das Estrelas, e diz que se baseava no que Apolônio havia

* Um jogo com os significados de Xoyos, que significa tanto razão quanto palavra, † Psyche, I. ii. 5. | Noack, ibid.

OS ESCRITOS DE APOLÔNIO.

aprendido na Índia; mas o tipo de adivinhação sobre o qual Apolônio escreveu não era a astrologia comum, mas algo que Filóstrato considera superior à arte humana comum em tais assuntos.

Ele, no entanto, nunca ouvira falar de alguém que possuísse uma cópia desta obra rara.

c. A Vida de Pitágoras.

Porfírio refere-se a esta obra,* e Jâmblico cita uma longa passagem dela.†

d. O Testamento de Apolônio, ao qual já se fez referência, ao tratar das fontes de Filóstrato (i. 3). Este foi escrito no dialeto jônico e continha um resumo de suas doutrinas.

Um Hino à Memória também lhe é atribuído, e Eudócia fala de muitas outras (καὶ ἄλλα πολλά) obras.

Indicamos agora ao leitor todas as informações que existem sobre nosso filósofo.

Era Apolônio, então, um trapaceiro, um vigarista, um charlatão, um fanático, um entusiasta equivocado, ou um filósofo, um reformador, um trabalhador consciente, um verdadeiro iniciado, um dos grandes da Terra? Isso cada um deve decidir por si mesmo, de acordo com seu conhecimento ou sua ignorância.

Eu, por minha parte, abençoo sua memória e de bom grado aprenderia com ele, como agora ele é.

* Ver Noack, Porphr. Vit. Pythag., p. 15. † Ed. Amstelod., 1707, cc. 254-264.

SEÇÃO XVIII.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS.

LITERATURA DO SÉCULO XIX SOBRE APOLÔNIO.

Jacobs (F.), Observationes in .... Philostrati Vitam Apollonii (Jena; 1804), puramente filológica, para a correção do texto.

Legrand d'Aussy (P. J. B.), *Vie d'Apollonius de Tyane* (Paris; 1807, 2 vols.).

Bekker (G. J.), *Specimen Variarum Lectionum .... in Philost. Vitae App. Librum primum* (1808); puramente filológico.

Berwick (E.), *The Life of Apollonius of Tyana*, traduzido do grego de Filóstrato, com Notas e Ilustrações (Londres; 1809).

Lancetti (V.), *Le Opere dei due Filostrati*, tradução italiana (Milão; 1828-31); na "Coll. degli Ant. Storici Greci volgarizzati."

Jacobs (F.), *Philostratus: Leben des Apollonius von Tyana*, na série «Griechische Prosaiker», tradução alemã (Stuttgart; 1829-32), vols. xlviii., lxvi., cvi., cxi., cada um contendo dois livros; um arranjo muito desajeitado.

Baur (F. C.), *Apollonius von Tyana und Christus oder das Verhältniss des Pythagoreismus zum Christenthum* (Tübingen; 1832); reimpresso da *Tübinger Zeitschrift für Theologie*. Segunda edição por E. Zeller (Leipzig; 1876), em *Drei Abhandlungen zur Geschichte der alten Philosophie und ihres Verhältnisses zum Christenthum*.

As edições de Kayser e Westermann, conforme referidas acima na seção v.

Newman (J. H.), "Apollonius Tyanaeus — Miracles," em *Smedley's Encyclopaedia Metropolitana* (Londres; 1845), x. pp. 619-644.

Noack (L.), "Apollonius von Tyana ein Christusbild des Heidenthums," em sua revista *Psyche: Popularwissenschaftliche Zeitschrift für die Kentniss des menschlichen Seelen- und Geistes-lebens* (Leipzig; 1858), Bd. i., Heft ii., pp. 1-24.

Muller (I. P. E.), *Commentatio qua de Philostrati in componenda Memoria Apoll. Tyan. fide quaeritur*, I.-III. (Onoldi et Landavii; 1858-1860).

Muller (E.), *War Apollonius von Tyana ein Weiser oder ein Betrüger oder ein Schwärmer und Fanatiker? Eine Culturhistorische Untersuchung* (Breslau; 1861, 4to), 56 pp.

Chassang (A.), *Apollonius de Tyane, sa Vie, ses Voyages, ses Prodiges, par Philostrate, et ses Lettres*, traduzido do grego, com Introdução, Notas e Esclarecimentos (Paris; 1862), com o título adicional, *Le Merveilleux dans l'Antiquité*.

Reville (A.), *Apollonius the Pagan Christ of the Third Century* (Londres; 1866), traduzido do francês. O original não está no Museu Britânico.

Priaulx (O. de B.), *The Indian Travels of Apollonius of Tyana*, etc. (Londres; 1873), pp. 1-62.

Monckeberg (C.), *Apollonius von Tyana, ein Weihnachtsgabe* (Hamburgo; 1877), 57 pp.

Pettersch (C. H.), *Apollonius von Tyana der Heiden Heiland, ein philosophische Studie* (Reichenberg; 1879), 23 pp.

Nielsen (C. L.), *Apollonios fra Tyana og Filostrats Beskrivelse af hans Levnet* (Copenhague; 1879); o Apêndice (pp. 167 e seguintes) contém uma tradução dinamarquesa do *Contra Hieroclem* de Eusébio.

Baltzer (E.), *Apollonius von Tyana, aus den Griech.*, traduzido e anotado (Rudolstadt i/Th.; 1883).

Jessen (J.), *Apollonius von Tyana und sein Biograph Philostratus* (Hamburgo; 1885, 4to), 36 pp.

Tredwell (D. M.), *A Sketch of the Life of Apollonius of Tyana, or the first Ten Decades of our Era* (Nova York; 1886).

Sinnett (A. P.), "Apollonius of Tyana," nas *Transactions* (n.º 32) da Loja de Londres da Sociedade Teosófica (Londres; 1898), 32 pp.

O estudante pode também consultar os artigos nos dicionários e enciclopédias usuais, nenhum dos quais, contudo, exige menção especial.

O erudito artigo de P. Cassel no *Vossische Zeitung* de 24 de novembro de 1878 não me foi possível consultar.

ALGUMAS INDICAÇÕES DA LITERATURA SOBRE AS ASSOCIAÇÕES RELIGIOSAS ENTRE GREGOS E ROMANOS.

Böckh (A.), *Die Staatshaushaltung der Athener* (1.ª ed. 1817). Para literatura mais antiga, ver i. 416, n.

Van Hoist, *De Eranis Veterum Graecorum* (Leiden; 1832). Mommsen (T.), *De Collegiis et Sodaliciis Romanorum* (Kiel; 1843). — "Römische Urkunden, iv. — Die Lex Julia de Collegiis und die lanuvinische Lex Collegii Salutaris," artigo na *Zeitschr. für geschichtl. Rechtswissenschaft* (1850), vol. xv. 353 e seguintes.

Wescher (C.), "Recherches épigraphiques en Grèce, dans l'Archipel et en Asie Mineure," artigos no *Le Moniteur* de 20, 23 e 24 de outubro de 1863. — "Inscriptions de l'Île de Rhodes relatives à des Sociétés..." religieuses"; "Notice sur deux Inscriptions de File de Thera relatives a une Societe religieuse"; "Note sur une Inscription de File de Thera publiee par M. Ross et relative a une Societe religieuse"; arts, in La Revue archeologique (Paris; new series, 1864), x. 460 sqq.


; 1865, xii. sqq.

; 1866, xiii. sqq.

Foucart (P.), Des Associations religieuses chez les Grecs, Thiases, Cranes, Orgeons, avec le Texte des Inscriptions relatives a ces Associations (Paris; 1873).

Liiders (H. O.), Die dionyschischen Künstler (Berlin; 1873).

Cohn (M.), Zum römischen Vereinsrecht: Abhandlung aus der Rechtsgeschichte (Berlin; 1873). Também a notícia disso no Philol. Jahresbericht de Bursian (1873), ii. 238-304.

Henzen (G.), Acta Fratrum Arvalium quae supersunt; . . . . accedunt Fragmenta Fastorum in Luco Arvalium effossa (Berlin; 1874).

Heinrici (G.), "Die Christengemeinde Korinths und die religiösen Genossenschaften der Griechen"; "Zur Geschichte der Anfänge paulinischer Gemeinden"; arts, in Zeitschr. für wissensch. Theol. (Jena, etc.; 1876), pp. 465-526, particularmente pp. 479 sqq.; 1877, pp. 89-130.

Duruy (V.), "Du Régime municipal dans l'Empire romain," art. in La Revue historique (Paris; 1876), pp. 355 sqq.; também sua Histoire des Romains (Paris; 1843, 1844), i. 149 sqq.

De Rossi, Roma Sotteranea (Roma; 1877), iii. sqq., e especialmente pp. 507 sqq.

Marquardt (J.), Römische Staatsverwaltung, iii. 131-142, no vol. vi. do Handbuch der römischen Alterthümer de Marquardt e Mommsen (Leipzig; 1878); um excelente resumo com notas valiosas, especialmente a seção "Ersatz der Gentes durch die Sodalitates für fremde Culte."

Boissier (G.), La Religion romaine d'Auguste aux Antonins (Paris; 2ª ed. 1878), ii. 238-304 (1ª ed. 1874).

Hatch (E.), The Organization of the Early Christian Churches: The Bampton Lectures for 1880 (Londres; 2ª ed. 1882); veja especialmente a Lecture ii., "Bishops and Deacons," pp. 26-32; ed. alemã Die Gesellschaftsverfassung der christlichen Kirchen in Altertum (1883), p. 20; veja esta para literatura adicional.

Newmann (K. J.), "Θίασοι Ἰησοῦ," art. in Jahrbb. für prot. Theol.

(Leipzig, etc.; 1885), pp. 123-125.

Schiirer (E.), *A History of the Jewish People in the Time of Jesus Christ*, trad. ingl. (Edimburgo; 1893), Div. ii. vol. ii. pp. 255 e 300.

Owen (J.), "On the Organization of the Early Church", ensaio introdutório à tradução inglesa de *Sources of the Apostolic Canons*, de Harnack (Londres; 1895).

Anst (E.), *Die Religion der Romer*; vol. xiii. *Darstellungen aus dem Gebiete der nichtchristlichen Religionsgeschichte* (Münster i. W.; 1899).

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS.

Ver também Whiston e o artigo de Wayte, "Arvales Fratres", e os artigos de Moyle, "Collegium" e "Universitas", no *Dicionário de Antiguidades Gregas e Romanas* de Smith, Wayte e Marindin (Londres; 3ª ed. 1890-1891); e também, naturalmente, os artigos "Collegium" e "Sodalitas" na *Realencyclopädie der classischen Alterthumswissenschaft* de Pauly, embora estejam agora um tanto desatualizados.

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OBRAS DO MESMO AUTOR.

A PISTIS SOPHIA: Um Evangelho Gnóstico.

(Com Extratos dos Livros do Salvador anexados). Originalmente traduzido do grego para o copta, e agora pela primeira vez vertido para o inglês a partir da Versão Latina de Schwartze do único MS. copta conhecido, e conferido com a Versão Francesa de Amélineau.

Com uma Introdução e Bibliografia.

pp., octavo grande. Tecido, 7s. 6d. líquido.

ALGUMAS OPINIÕES DA IMPRENSA.

"A Pistis Sophia há muito é reconhecida como um dos mais importantes documentos gnósticos que possuímos, e o Sr. Mead merece a gratidão dos estudiosos da História da Igreja e da História do Pensamento Cristão, por sua admirável tradução e edição deste curioso Evangelho." — *Glasgow Herald*.

"O Sr. Mead prestou um serviço a outros que não os teosofistas com sua tradução da Pistis Sophia. Esta obra curiosa não recebeu, até recentemente, a atenção que merece. Ele prefixou uma breve Introdução, que inclui uma excelente bibliografia. Assim, o leitor inglês está agora em condições de julgar por si mesmo o valor científico do único tratado gnóstico de extensão considerável que chegou até nós." — *Guardian*.

"Do ponto de vista de um estudioso, a obra é valiosa por ilustrar as tendências filosófico-místicas do segundo século." — Record.

"O Sr. Mead merece agradecimentos por ter vestido em trajes ingleses este curioso documento dos primórdios da filosofia cristã." — Manchester Guardian.

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FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA.

Alguns breves esboços entre os gnósticos, principalmente dos primeiros dois séculos — uma contribuição ao estudo das origens cristãs baseada nos materiais mais recentemente descobertos.

I. Introdução — Esboços do contexto da Gnose; Literatura e fontes do Gnosticismo.

II. A Gnose segundo seus Inimigos — Fragmentos gnósticos recuperados dos escritos polêmicos dos Padres da Igreja; a Gnose nos Atos não canônicos.

III. A Gnose segundo seus Amigos — Obras originais gregas em tradução copta; os Códices Askew, Bruce e Akhmim.

Bibliografias classificadas são anexadas.

630, xxviii pp., Octavo Grande, Tecido.

10s. 6d. líquido.

ALGUNS COMENTÁRIOS DA IMPRENSA.

"O Sr. Mead realizou seu trabalho de maneira erudita e meticulosa." — The Guardian.

"O estudante comum de evidências cristãs, se confinar sua leitura aos 'Padres', nada aprende dessas opiniões [as chamadas 'heresias' gnósticas], exceto por meio de refutação e condenação irada. Nas páginas do Sr. Mead, contudo, elas são tratadas com imparcialidade e franqueza. Estas observações bastarão para mostrar o caráter único deste volume e para indicar que os estudantes podem encontrar aqui matéria de grande serviço para a interpretação racional do pensamento cristão." — Bradford Observer.

"O livro, explica o Sr. Mead, não se destina principalmente ao estudante, mas ao leitor geral, e certamente não deveria ser negligenciado por qualquer pessoa interessada na história do pensamento cristão primitivo." — The Scotsman.

"A obra é de grande labor e erudição, e merece estudo como uma avaliação compreensiva de uma classe de hereges severamente julgada." — Glasgow Herald.

"Escrito em um estilo claro e elegante. As bibliografias no volume são de

"abrangência mundial, e será de grande valor para os estudantes de teosofia." — Asiatic Quarterly.

"O Sr. Mead escreve com precisão e clareza sobre assuntos geralmente associados a complexidades e mistificações desconcertantes.

Até o 'leitor comum', tão paciente, poderia percorrer este grande volume com prazer.

Isso é muito dizer de um livro sobre tal assunto." — Light.

"Esta obra notável certamente será lida não apenas com o maior interesse no círculo seleto dos cultos, mas por aquele círculo muito maior daqueles que anseiam por aprender tudo

sobre a Verdade. Pode ser resumida como uma exposição extraordinariamente clara da

Gnose dos Santos e dos Sábios do Cristianismo filosófico." — The Roman Herald.

"Abrangente, interessante e erudita. Os capítulos intitulados 'Alguns

Esboços Grosseiros do Pano de Fundo da Gnose' são bem escritos e tendem a focalizar o movimento filosófico e religioso do mundo antigo.

Há uma bibliografia excelente." — The Spectator.

"O Sr. Mead nos presta mais um serviço ao incluir uma cópia completa do Hino Gnóstico do Manto da Glória .... e um epítome prático da Pistis Sophia é outro item pelo qual o estudante será grato." — The Literary Guide.

"O autor tem naturalmente o interesse de um teosofista no Gnosticismo e aborda o assunto, consequentemente, de um ponto de vista diferente do nosso.

Mas, embora seu ponto de vista emerga no decorrer do volume, isso não afeta o valor de sua obra

para aqueles que não compartilham de sua perspectiva especial. O Sr. Mead, de qualquer forma, prestou-nos

um excelente serviço, e aguardaremos com prazer seus futuros estudos." — The Primitive Methodist Quarterly.

Esta é a Primeira Tentativa que foi feita para reunir Todas as Fontes Existentes de Informação sobre os Primeiros Filósofos Cristãos.

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Contém uma Tradução dos Upanishads Isha, Kena, Katha, Prashna, Mundaka e Mandukya, com um Preâmbulo Geral, Argumentos e Notas por G. R. S. Mead e J. C. Chattopadhyaya (Roy Choudhuri).

VOLUME II.

Contém uma Tradução dos Upanishads Taittiriya, Aitareya e Shvetashvatara, com Argumentos e Notas.

a

-

B Mead, George Robert Stow

Apolônio de Tiana

cop.

POR FAVOR, NÃO REMOVA CARTÕES OU FICHAS DESTE BOLSO

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